quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um olhar sobre a Educação e o Ensino em Portugal na sociedade pós-moderna e globalizada

Num tempo muitas e repetidas vezes caracterizado por uma “crise de valores”, que convive com o colapso de alguns “grandes” sistemas ideológicos, do declínio do capital social, com a afirmação do individualismo hedonístico e da diferença, de novos estilos de vida, do multicultoralismo, da cultura do entretenimento e da diversão, do homem light, do facilitismo, do anything goes, da “era do vazio” e do nada (nihilismo), da intolerância fanática dos novos fundamentalismos integristas, das crenças em novos ídolos (consumismo e neopaganismos) a que subjaz um ambiente cultural e filosófico dominado por um certo relativismo axiológico ao nível ético-moral, sustentado por uma democracia de opiniões (opinions makers, lobbing), será legitimo perguntar como aprender a ser, aprender a conhecer, aprender a fazer e a aprender a viver juntos diante da “globalização”, de uma “nova ordem mundial” nesta era da “sociedade da informação e conhecimento” e no século XXI?

Mais do que nunca é necessário reafirmar um conjunto de crenças, princípios e valores sobre a natureza da Escola e do sistema educativo que coloque no centro o desenvolvimento da pessoa humana. É pois, uma matriz ou modelo humanista e personalista que serve de base e pressuposto á reflexão que o MEP tendo vindo a forjar em vista da elaboração do seu programa político para a Educação, Formação e Ensino Superior. Nesta medida, esta matriz tem subjacente a crítica de outras concepções do sistema educativo que parecem querer subordinar a educação e ensino ao económico, e bem assim, a uma mera finalidade de transmissão de conhecimentos e saberes medidos pela sua quantidade e eficácia prática (pragmatismo) em desfavor de construção de saberes interligados que possibilitem aos alunos uma compreensão mais alargada do mundo e de si próprio: numa palavra capacidade crítica e de auto-reflexão capaz de tornar as crianças e jovens em futuros cidadãos verdadeiramente livres, responsáveis, autónomos e solidários, valorizando a dimensão humana do trabalho.


José Manuel da Costa Meireles
MEP-Núcleo do Minho

3 comentários:

Carlos Albuquerque disse...

Só é possível interligar saberes quando se tem saberes para interligar. A capacidade crítica desprovida de capacidade técnica não vai longe.

Infelizmente há uma grande fragilidade técnica no ensino em Portugal.

Há que construir belos edifícios a partir dos alicerces, ainda que os alicerces não sejam bonitos e fiquem enterrados.

Helena Azeredo disse...

Cliquei nos comentários para dizer que não há cidadãos livres simultaneamente ignorantes e que não se pode ser crítico se não se conhecer a diversidade.
Mas encontrei (felizmente) o comentário anterior, pelo que não preciso de ir mais longe... está dito!
Quanto à questão dos valores, ou da sua crise, não me parece suficiente trabalhar a educação apenas no âmbito do que o estado possa fazer por isso nas escolas públicas... Os valores aprendem-se (apreendem-se mais por exemplos do que por palavras) em casa.
Há que chamar e ajudar os pais a cumprir bem o seu papel de primeiros e mais influentes educadores e envolver toda a sociedade numa auto-reflexão clara e aberta, para que compreendamos todos melhor o que hoje nos motiva e que valores (de tantos "...ismos" que se referem neste post) defendemos e reclamamos.

Rui NS disse...

Não é por acaso que o debate sobre Educação, dentro do MEP, tem sido tão participado e com tantos contributos, nomeadamente do José Meireles e do Carlos Albuquerque. Este é um dos temas mais difíceis e simultaneamente mais urgentes para Portugal.
Também o comentário da Helena Azeredo - mais uma vez muito bem vinda com as suas intervenções -toca num dos pressupostos iniciais para o MEP nesta questão: o papel central da família na educação dos seus filhos.