quinta-feira, 31 de julho de 2008

É contra ou a favor?

A principal crítica ao sistema de Saúde cai num ponto que é aliás comum a todos os sectores da actividade pública – a falta de planeamento e organização interna. Mas mexer na (falta de) organização implica alterar hábitos, rotinas e funções; tudo isto gera insegurança e por vezes interfere com interesses instalados.

Pensando na actual situação dos hospitais públicos, como se posicionam os cidadãos face às afirmações que se seguem?


Focalizar os hospitais nos cuidados de risco

1) Os hospitais, assim se queixa toda a gente, estão ensanduichados entre os cuidados primários e os cuidados paliativos. Seria preciso aligeirá-los desse tipo de serviços para se poderem focalizar no tratamento das situações agudas, ganhando liberdade e flexibilidade para responderem de forma eficaz aos cuidados de risco que são, no fundo, a sua verdadeira missão.

Contratualizar com base nos resultados

2) Financiar os hospitais em função do número de exames, análises e consultas faz disparar as despesas sem qualquer contrapartida na qualidade do serviço prestado. Seria preferível responsabilizar e dar valor aos profissionais que trabalham, financiando as unidades hospitalares pela capacidade de produzirem melhores resultados na população, não por gastarem menos ou mais dinheiro ou por realizarem um maior ou menor número de actos médicos.

Valorizar os interesses dos doentes

3) Os Hospitais devem assumir uma lógica de organização interna que valorize os interesses dos doentes. Quer-se mais conforto e mais qualidade, com facilidades como poder marcar exames e receber resultados por internet ou ter bons acessos para transporte e estacionamento; e por outro lado pensar na separação entre zonas de cuidados intensivos, internamento hospitalar e consultas, evitando situações de desconforto para os doentes, apesar de logisticamente essa proximidade ser muito prática para os médicos.

A competitividade potencia a eficácia e a qualidade

4) De acordo com os resultados da OCDE em Portugal, nos Hospitais de gestão pública, regista-se um desperdício na ordem dos 30%.

A escolha, por parte do cidadão, induz a concorrência, que por sua vez cria competitividade, com consequências positivas na eficácia e na qualidade.


Maria de Assis

3 comentários:

Carlos Albuquerque disse...

Esta questão da saúde parece-me paradoxal. Os objectivos 1), 2) e 3) parecem sugerir que se conhece um método de gestão para os conseguir. No ponto 4) apenas é dito que actualmente há bastante desperdício nos hospitais públicos em Portugal, sem haver dados sobre os privados.

Ora se os privados têm técnicas para terem eficácia e qualidade os públicos também poderão ter.

Ao mesmo tempo tenho presentes algumas experiências recentes com familiares em hospitais públicos e privados: não só certas medidas de "poupança" são muito pouco razoáveis, como não noto que se possa dizer que os privados fazem um serviço melhor do que os públicos.

Em resumo: melhor saúde, sim, mas não me parece que seja na dicotomia público/privado que se vai resolver a questão.

AEF disse...

Maria,
bom texto. Boa reflexão.

Maria de Assis disse...

Carlos Albuquerque, tem toda a razão quando diz que os pontos 1) 2) e 3) preconizam uma lógica de gestão distinta da actual. Mas acho curioso que conclua que ela é apanágio da gestão privada. A boa gestão, em qualquer organismo, não pertence à esfera nem do público nem do privado.Temos seguramente hospitais públicos bem geridos e privados mal geridos. Assim, e estando de acordo que devemos por de lado a dicotomia público/privado, gostaria muito de saber a sua opinião sobre as sugestões/afirmações enunciadas nos vários pontos... serão pertinentes e exequíveis?
Maria de Assis