domingo, 22 de fevereiro de 2009

Tratar TEMAS SÉRIOS de forma ligeira e oportunista não vale!!!

Os temas do casamento homossexual e da eutanásia, são por demais importantes para serem utilizados de forma oportunista. Umas vezes para prometer e obter votos, outras vezes para adiar, e assim baixar as vozes da critica e da polémica. Depois, algum tempo mais tarde, voltando a ressuscitar para desviar atenções. E assim, tratar um tema que toca muito a muitos, de forma leve, e oportunista, em vez de o tratar com tempo, profundidade e seriedade.

Este texto do Mário Crespo é assim uma muito forte chamada de atenção a quem utiliza de forma muito ligeira e provavelmente menos séria, alguns dos temas que mais tocam as gerações actuais.

De facto é possível fazer muito Melhor.

O Horror do Vazio

O horror do vazio Depois de em Outubro ter morto o casamento gay no parlamento, José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista, assume-se como porta-estandarte de uma parada de costumes onde quer arregimentar todo o partido. Almeida Santos, o presidente do PS, coloca-se ao seu lado e propõe que se discuta ao mesmo tempo a eutanásia. Duas propostas que em comum têm a ausência de vida. A união desejada por Sócrates, por muitas voltas que se lhe dê, é biologicamente estéril. A eutanásia preconizada por Almeida Santos é uma proposta de morte. No meio das ideias dos mais altos responsáveis do Partido Socialista fica o vazio absoluto, fica "a morte do sentido de tudo" dos Niilistas de Nitezsche. A discussão entre uma unidade matrimonial que não contempla a continuidade da vida e uma prática de morte, é um enunciar de vários nadas descritos entre um casamento amputado da sua consequência natural e o fim opcional da vida legalmente encomendado. Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise). Propõem a ausência de vida num lado e processos de acabar com ela noutro. Assustador, este Mundo politicamente correcto, mas vazio de existência, que o presidente e o secretário-geral do Partido Socialista querem pôr à consideração de Portugal. Um sombrio universo em que se destrói a identidade específica do único mecanismo na sociedade organizada que protege a procriação, e se institui a legalidade da destruição da vida. O resultado das duas dinâmicas, um "casamento" nunca reprodutivo e o facilitismo da morte-na-hora, é o fim absoluto que começa por negar a possibilidade de existência e acaba recusando a continuação da existência. Que soturno pesadelo este com que Almeida Santos e José Sócrates sonham onde não se nasce e se legisla para morrer. Já escrevi nesta coluna que a ampliação do casamento às uniões homossexuais é um conceito que se vai anulando à medida que se discute porque cai nas suas incongruências e paradoxos. O casamento é o mais milenar dos institutos, concebido e defendido em todas as sociedades para ter os dois géneros da espécie em presença (até Francisco Louçã na sua bucólica metáfora congressional falou do "casal" de coelhinhos como a entidade capaz de se reproduzir). E saiu-lhe isso (contrariando a retórica partidária) porque é um facto insofismável que o casamento é o mecanismo continuador das sociedades e só pode ser encarado como tal com a presença dos dois géneros da espécie. Sem isso não faz sentido. Tudo o mais pode ser devidamente contratualizado para dar todos os garantismos necessários e justos a outros tipos de uniões que não podem ser um "casamento" porque não são o "acasalamento" tão apropriadamente descrito por Louçã. E claro que há ainda o gritante oportunismo político destas opções pelo "liberalismo moral" como lhe chamou Medina Carreira no seu Dever da Verdade. São, como ele disse, a escapatória tradicional quando se constata o "fracasso político-económico" do regime. O regime que Sócrates e Almeida Santos protagonizam chegou a essa fase. Discutem a morte e a ausência da vida por serem incapazes de cuidar dos vivos.
In DN, por Mário Crespo

9 comentários:

Carlos Albuquerque disse...

Realmente fico com a impressão que o casamento homossexual (agora proposto pelo PS depois da recusa no Parlamento há poucos meses) e a eutanásia só servem para distrair os eleitores dos problemas gravíssimos que enfrentamos.

Mas a argumentação do Mário Crespo em relação aos temas parece-me muito limitada. Em particular, no que diz respeito ao casamento homossexual, ocorre-me dizer que se não há melhor argumento do que o da reprodução biológica, então o casamento deve ser instituído já.

A riqueza do casamento heterossexual vai muito para além da fecundidade biológica. Muitos casais heterossexuais não podem ser fecundos biologicamente mas um verdadeiro amor é sempre fecundo. Aliás tanto é assim que há mesmo pessoas que optam pelo celibato em nome de um amor fecundo. A forma como o Mário Crespo trata o assunto chega a roçar o insultuoso para um casal heterossexual com infertilidade ou para um casal homossexual que se ame.

Orlando disse...

BOA CARLOS!
Ainda acabas expulso do MEP, mas tens todo o meu apoio.

Caro João PB,
um partido deve-se impor pelas suas ideias. Se não têm mais nada para oferecer do que copiar os artigos dos outros, o que é que vão fazer às eleições?

Kruzes Kanhoto disse...

O próximo passo, porque o casamento entre pessoas do mesmo sexo está mais que garantido, terá de ser o fim da limitação do casamento a duas pessoas. Trata-se de um conceito claramente redutor da liberdade de cada um.

Carlos Albuquerque disse...

KK

Casamentos a três ou mais já existem no mundo árabe. O que não existe é igualdade de direitos e deveres nessas uniões.

Quando houver um número significativo de pessoas a viver em união a três, com igualdade de direitos e deveres, que pretendam a sua institucionalização, poderemos considerar essa hipótese.

A. Dourado disse...

Creio, prezados amigos, que estes dois assuntos – homossexualidade e eutanásia – não podem ser tratados – ou comentados – com ligeireza; muito menos colocados no mesmo patamar…

A homossexualidade, realidade multissecular que perpassa todas as sociedades, merece o nosso respeito e melhor atenção. Eles e elas não são portugueses de segunda… são seres humanos com uma identidade sexual diferente do padrão socialmente aceite, instituído e propalado. Não sei se deverão ser sujeitos de um «casamento», mas de um «matrimónio» com certeza (entenda-se este último no sentido jurídico do benefício de privilégios legais). Todo o ser humano é igual perante a lei, e a lei a ninguém pode discriminar.

Quanto à eutanásia, longe do termo grego de «morte doce e fácil», ela levanta problemas morais e jurídicos bem mais complexos. A verdade dos doentes terminais e o seu bem-estar deve a todos preocupar… Por isso urge um debate franco e justo sobre que, e quais, condições podem induzir ao términos de uma vida humana.

As necessidades de um doente em estado terminal, muitas vezes isolado pela sociedade, aumentam as exigências no que respeita a cuidados de conforto que promovam a qualidade de vida física, intelectual e emocional sem descurar a vertente familiar e social. Como bem afirma o CNECV «não há nenhum argumento ético, social, moral, jurídico ou da deontologia das profissões de saúde que justifique em tese vir a tornar possível por lei a morte intencional de doente (mesmo que não declarado ou assumido como tal) por qualquer pessoa designadamente por decisão médica, ainda que a título de "a pedido" e/ou de "compaixão”».
Em minha opinião, quer a eutanásia, quer a distanásia, são dois extremos nos quais não podemos cair, sob pena de desumanizarmos o humano.

Rui MCB disse...

Em duas penadas, o Carlos colocou o artigo de Mário Crespo no seu devido lugar e de caminho deixou, com cordialidade, bons argumentos para complicar pensamentos simplistas.

Orlando,
O MEP é plural, não expulsa com ligeireza. Tenho para mim que é mais plural que muitos partidos que andam tanta vez a bater com a mão no peito quanto à liberdade e que tanto afinco têm tido em nos encostar num extremo que não é o nosso. Esteja atento. Abraços.

João PB disse...

Caro Orlando,

Acrescento ao que o Rui disse, algo que tenho como o mais relevante sobre o tema da oportunidade e seriedade com que se tratam estes, ou quaisquer outros temas relavantes para as pessoas em geral.

O mais importante para quem tem responsabilidades na gestão e agendamento dos temas num país, deverá ser a capacidade de ser oportuno, éticamente coerente e consistente, e sobretudo construtivo, pois só os debates fomentados com o objectivo claro e inequivoco de construir o que em cada momento os Portugueses mais necessitam de ver tratado, são aqueles que chamam efectivamente as pessoas a congregarem-se em redor de temas, ideias e soluções que tentativamente benefíciarão a maior parte de nós, e sobretudo atraírão a participação de todos.

Estes são também alguns dos princípios pelos quais o MEP se orienta, o que permite que as propostas que vão sendo feitas tenham também estas linhas de orientação. E tanta é a falta que sentimos destes princípios, quando ouvimos uma parte significativa dos nossos politicos a falar no dia a dia ...

Assim, quem quiser participar, baseado em princípios e ética em linha com as defendidas pelo MEP, pode conceteza contribuir para esta forma de construir um nosso Portugal melhor.

Henrique Joaquim disse...

olá a todos
de facto penso que o Carlos tem toda a razão embora reconheça que o pensamento do Mário Crespo não me deixa indiferente nomeadamente no que se refere a esta cultura de não promoção da vida - nas palavras que ouvi ao Dr. Almeida Santos a uma rádio "o direito a morrer é um direito como outro qualquer".
Também concordo que não nos podemos deixar arrastar pela tentação de não tratar tudo da mesma maneira.
O meu contributo neste momento são mais questões do que respostas:
a) porquê esta discussão agora quando diariamente temos famílias inteiras no desemprego?
b) quais os riscos que corremos a queremos tratar de forma igual as realidades que são por natureza diferentes?
c) querendo igualizar tudo e todos onde fica o direito à diferença?

Carlos Albuquerque disse...

Henrique

Quanto à alínea a) suspeito que a resposta é que a discussão surge agora precisamente porque é agora que se começa a sentir com mais intensidade a crise económica.

Quanto às alíneas b) e c) eu diria que podemos tratar de forma igual realidades diferentes desde que o tratamento se refira apenas ao que as situações têm em comum.

O que está em causa é o casamento civil. Sabemos que este junta realidades muito diferentes. O casamento civil tanto abrange dois jovens que querem partilhar a vida mas não querem ter filhos, como abrange um casal que acha que através dos filhos poderá manifestar a fecundidade do seu amor. Abrange tanto o casal que por motivos religiosos entende que a mulher se subordina ao homem como o casal que entende que ambos têm iguais direios e deveres.

Ora do que consegui ver no Código Civil (aviso: não sou jurista), a propósito do que é o casamento (art.º 1577) e dos direitos e deveres (art.º 1671 e seguintes), tudo o que lá vem aplica-se naturalmente a casais heterossexuais desde que eliminemos a restrição que no art.º 1577 refere "de sexo diferente".

Assim, a diferença do casal ser homossexual não deverá ficar onde ficam as outras diferenças: fora da lei?