sábado, 29 de março de 2008

Viver a Esperança hoje

Como um belo poema pode dizer tanto sobre a nossa vida e as opções que temos entre mãos. Não desistir, viver! Aqui fica esta partilha:

Álvaro de Campos (poema sem título)

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido-
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso- e foi afinal o melhor de mim- é que nem os deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sem em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -
Se tudo isso tivesse sido assim, Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísica nenhum.
Pode ser que para putro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci do sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo,
para todos os universos.
Nessa noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível pra mim.

in
Pessoa

2 comentários:

Alvaro disse...

Ao ler, reparei na palavra madorra, que não conheço, pelo que procurei o poema na net e verifiquei o que já imaginava: a palavra que lá deveria estar era "modorra":

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
«««««««
Como "melhor é possível", aqui vai este reparo sem importância.
Alvaro Pinto

AEF disse...

Que muito se agradece, é o que dá o copiar/colar. As minhas desculpas.
Ângelo