terça-feira, 19 de agosto de 2008

A filosofia do condomínio fechado

No fim-de-semana recebi o telefonema de um amigo de longa data a convidar-me para o visitar na sua nova casa. Um belo apartamento num condomínio fechado numa cidade de média dimensão do interior do país. Esta trivial conversa com o meu amigo deixou-me a pensar como perigosa e sub-repticiamente se vai instalando nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa a filosofia do condomínio fechado, consubstanciada na ideia de que face aos problemas, às dificuldades e às ameaças que nos circundam a melhor resposta é fecharmo-nos no nosso microcosmo e ignorar a realidade exterior.

Esta é uma ideia perigosa que urge combater. Perigosa porque profundamente errada. As dificuldades e ameaças resolvem-se não escondendo-as debaixo do tapete como se elas não existissem, mas sim assumindo-as e enfrentando-as com coragem, determinação e optimismo. O nosso bem-estar pessoal depende necessariamente do bem-estar dos outros e do bom ambiente social em que nos integramos. Jamais nos poderemos sentir bem e viver confortáveis quando a realidade à nossa volta se degrada a cada dia que passa.

Urge por isso contrapor à ideia do condomínio fechado a política de uma mesa com lugar para todos, onde todos somos úteis e necessários para de mãos dadas enfrentarmos e vencermos os grandes e difíceis desafios colectivos que o presente nos coloca. Só assim poderemos construir no futuro um país com mais coesão e justiça social, com mais inclusão e menos exclusão e discriminação.

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Com união : melhor é possível!


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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Parabéns Vanessa Fernandes!

Vanessa Fernandes conquista medalha de prata no triatlo olímpico

Vanessa Fernandes acaba de nos dar uma grande alegria. Ficamos contentes sobretudo por ela e pelo que a medalha siginifica de compensação para o seu esforço e dedicação, assim como daqueles que a apoiam.
Mas, neste momento de alegria, coroado com uma medalha olímpica, não podemos deixar de enviar um abraço aos outros atletas que não subiram ao pódio e deram o seu melhor. Também eles são dignos do nosso apoio, da nossa admiração.
Não quer isto dizer que não tenhamos o direito de ser exigentes e de sonhar com medalhas, porque temos. E não devemos, como diz Margarida Neto no texto anterior, resignar ao tradicional queixume e desresponsabilização.
Um abraço especial a Francis Obikwelu, sobretudo pelo que ele representa de humildade e simplicidade, mas também pelo símbolo que ele é de e para Portugal, que tantas alegrias já nos deu, vestindo orgulhosamente as cores nacionais. Ele é também o símbolo daquilo que para mim representa "ser português", o que extravaza muito as fronteiras físicas, o local de nascimento, a raça, a cultura, a religião. No fundo, "ser português" bem podia significar "ser universal", nessa vocação para o mar, porto de partida e chegada permanentes.

Ângelo Ferreira
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Prata com sabor a ouro




Enquanto muitos ocupam o seu tempo de Agosto a criticar a participação portuguesa nos Jogos Olímpicos (algumas vezes com razão, embora no tempo errado) esta atleta revela-nos, na vitória, o segredo do seu sucesso. E é com a mesma naturalidade com que ganhou 20 Taças do Mundo de Triatlo que a pentacapeã da Europa na modalidade o faz.

A sua humildade é demolidora. Não a humildade tantas vezes entendida como a pequenez de quem se faz menor por vaidade, mas a correcta humildade de quem sabe exactamente o seu lugar. Esta medalha de prata que hoje ganhou, é resultado de uma correcta perspectiva sobre sua carreira. Toda a avaliação que faz, logo após a prova, revela um planeamento adequado da mesma e, portanto, a conquista da medalha de prata serve-lhe com inteira justiça.

Depois de ler as suas próprias palavras, concordo em pleno que esta portuguesa "é prata que sabe a ouro".

Parabéns! Pela medalha e não só.


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sábado, 16 de agosto de 2008

As medalhas e os jogos olímpicos

por Margarida Neto:
A Comunicação Social repete, dia após dia, que os “Portugueses
falham as medalhas”. Francis Obikwelu, desiludido, pede desculpa e afirma desistir da sua carreira. Já não participará nas eliminatórias dos 200 metros.

Será este o destino dos Portugueses?
Partimos anunciando vitórias… vivemos dias de ilusão de que será possível… e depois caímos na desilusão… arranjamos culpados…ele é a falta de condições… os árbitros…as horas da competição…as lesões….

Tudo serve de desculpa… neste fado de país triste e pequeno…

Não pode ser este o caminho! Não podemos aceitar que seja quase sempre assim….

À hora a que escrevo, não sei se haverá ou não medalhas.

Não é isso que me importa.

Importa-me a forma como nos organizamos, como sonhamos, como nos preparamos, como avaliamos o que fazemos.

Em primeiro lugar, o sentido da humildade.

Podemos e devemos aspirar o máximo, mas com o sentido da realidade. Competimos com os melhores e eles querem o mesmo que nós. É arrogante pensar que seria fácil e que as medalhas, à partida, já estariam ganhas.

Importa avaliar o esforço de cada atleta.
Reconhecer as marcas pessoais que foram superadas.
Valorizar o mérito do esforço feito, e motivar para o que cada um pode ainda fazer melhor.

Correu mal? Recomeça-se.
Não foi suficiente? Há que continuar a trabalhar…

Desistir e culpabilizar os outros é um dos defeitos que os Portugueses têm de corrigir.

Acreditar que somos capazes, sem utopia.
Quanto mais alto se sobe, maior é a queda, diz o povo e com razão..

E fazer por isso. Cada um. Todos. Todos em conjunto.
Claro que somos capazes!
Na memória de todos, a atitude e nobreza, da selecção nacional de râguebi. Entrega, espírito de equipa, crença, ousadia, preparação, liderança.

É nos momentos difíceis, que se conhece a fibra de alguém.

Com os países, com os povos, é igual. Connosco, parece que a crise se cola à alma, passa a ser destino, em todos os momentos, em todas as áreas.

Não tem de ser assim.
Na vida como na política, na economia como no desporto.

Melhor é possível! É nisto que temos de acreditar.

E as medalhas?

Claro…. Se houver medalhas… vibrarei com a nossa bandeira a subir ao podium…E se ouvir o Hino de Portugal, as lágrimas serão certas…. Que sou bem portuguesa….e a emoção forte…

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Um Olhar sobre a Pobreza, a propósito de um livro (com o mesmo título) de Alfredo Bruto da Costa.



Há 8 anos atrás – recordo agora - tomei parte numa radical experiência: uma peregrinação. E em regime de mendicância, explicaram-me na altura. Inscrevi-me, pois, para ver o que era. A aventura começou num domingo de Agosto na cidade de Bolonha, e com fim no domingo seguinte em Florença; o destino era Roma, onde decorriam as Jornadas Mundiais da Juventude. Éramos um grupo de 70 pessoas de varias idades, maioritariamente jovens, e de varias nacionalidades, liderados por uma austríaca. Numa espécie da banca de depositantes mais ou menos improvisada, pediram-nos que entregássemos os nossos haveres, dinheiro e meios de pagamento a pessoas de confiança e assim fizemos. Só deveríamos levar connosco uma pequena mochila e algumas peças de vestuário e saco-cama, e tudo não deveria exceder 10% do peso do corpo. Não teríamos equipa de apoio logístico e alojamento reservado ou garantido em lugar algum. Instruídos no conhecimento das regras do “contrato de peregrinação mendicante” e depois de uma viajem de comboio de Milão a Florença, pusemo-nos a caminho . O que se pedia a cada um dos sub grupos de romeiros mendicantes em que nos subdividimos? Que pedissem comida, água, pão, fruta, sobras, enfim, o que as pessoas quisessem dar, para depois ser partilhado pelo grupo dos 70, em refeições comuns, meia hora após o peditório. Na memória ficaram-me gravadas as dúvidas e hesitações iniciais. Ninguém do meu subgrupo falava italiano; em que língua nos vamos dirigir aos italianos? Serão que nos irão entender? E se, mesmo assim, as pessoas não quiserem dar nada? Paciência, voltaríamos de mãos vazias para junto do grupo! Resignado avancei para a primeira missão. E logo surgiu na primeira pizzaria que estava aberta, a primeira negativa: «senza dinario, no, solo pagare». No entanto, pese embora a dificuldade (humildade) em pedir alimentos e alojamento, o certo é que a generosidade dos italianos era real,; entretanto, crescia a sentido de fraternidade e de partilha do grupo, e de cada um dos peregrinos; recordo em especial aquele dia, em que alguém foi pedir comida a uma aldeia mais distante pois na que ficáramos não havida nada, e puro milagre, já muito tarde, apareceu uma santa alma com um magnifico repasto para todos, e logo no dia seguinte, sol posto, lá voltara junto da casa onde dormíramos ao relento, com um daqueles pequenos-almoços que ninguém esquece. Ah, e o que dizer daquela comunidade de aldeões isolados nas suas pequenas casas de montanha que nos ofereceram em demonstração da sua espontânea hospitalidade um jantar tradicional carregado de pasta e, imagine-se, café, luxo de que nos priváramos há já alguns dias. Menos desconfiadas que os citadinos, as pessoas das localidades mais do interior, do campo, eram em regra mais generosas e amigas de dar: pedintes de pés descalços, ou turistas espertalhões armados em peregrinos, creio que deveria este o que perpassava no olhar de alguns. E isso era o que custava mais: dizer que não éramos uma fraude, dizer que éramos verdadeiramente peregrinos (noi siamo pellegrini) a caminho de Roma e que não tínhamos dinheiro (non haviamo dinario), que era uma provação voluntária com um sentido e significado: abandono e confiança nos outros e para os crentes, confiança na Providência. O que aprendi? Fazer-se pobre é incomparavelmente mais fácil do que ser-se pobre. Viver na pobreza é bem mais difícil do que viver em “voto temporário” de pobreza. O que mais custou? Alguns nãos, o desviar de olhar de alguns, ou o olhar desconfiado de algumas pessoas. Talvez seja isso que mais dói aos pobres: o não olhar nos olhos, mesmo na hora do gesto mais ou menos espontâneo da esmola.

Vem tudo isto a propósito de um livro: “ Um olhar sobre a Pobreza”, de Alfredo Bruto da Costa. Um estudo transformado em livro, que analisa a pobreza e põe em evidência que a pobreza, enquanto problema estrutural da sociedade portuguesa, exige soluções que dependem não apenas de políticas sociais, certamente indispensáveis, mas também da política económica.
E, não poderia deixar de referir a notável iniciativa que através da petição dirigida á Assembleia da República a Comissão Nacional Justiça e Paz (http://cnjp.ecclesia.pt) tem vindo a realizar em torno do reconhecimento da Pobreza como uma grave negação dos direitos humanos fundamentais e das condições necessárias ao exercício da cidadania, situação que reputa de eticamente condenável, politicamente inaceitável e cientificamente injustificável.
Com efeito, como se diz e bem naquela petição, a pobreza e exclusão têm causas estruturais e, por isso, não se resolvem apenas com sobras ou gestos de generosidade esporádica.

Cont.


JMCM

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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Queria de ti








Queria de ti um país de bondade e de bruma

Queria de ti o mar de uma rosa de espuma



Mario Cesariny

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Liberdade para acreditar, educação para ganhar


O actual momento em Portugal é difícil, muito difícil. Não o será para todos, é certo, e é preciso reconhecer que vivemos muito melhor, em regra, do que os nossos pais. Mas isso começa a ser uma espécie de prémio de consolação, pois todos sabemos o quanto devíamos estar melhor. No entanto, afastamo-nos cada vez mais dos nossos parceiros europeus, e somos ultrapassados pelos recém-chegados ao clube europeu. Será motivo para desesperar? Não, antes para acreditar e lutar, mas com os pés assentes no chão.
O que não podemos é deixar-nos levar pelas aparências ou ir em facilitismos. O problema é sério e não tem solução fácil nem milagrosa. Depende de todos. E não basta o discurso do “Portugal positivo” – é preciso acompanhar com a prática do “trabalho positivo”. Devemos cultivar a esperança e fundá-la no esforço, no trabalho dedicado, na educação, no rigor, na justiça para todos, na igualdade de oportunidades, na exigência, na solidariedade.
Vivemos uma espécie de embriaguez, teimando em não acordar, talvez com receio da ressaca, que, no entanto, se vai apoderando do nosso dia-a-dia.
Não nos deixemos levar pelas aparências, porque em muitos casos é disso mesmo que se trata, de pura aparência, com muita gente a gastar acima das reais possibilidades, a viver irresponsável e perigosamente de créditos para tudo e para nada, até para umas “férias aspirina”, que escondam a agonia. Vidas que são castelos de açúcar, frágeis, próximos da derrocada em cada fim de mês, quando é preciso cruzar as contas com a folha de vencimento. Tudo isto com o beneplácito e até o estímulo de governos irresponsáveis, que gostam de vender sonhos ao desbarato ou de torturar as estatísticas a seu favor.
Por outro lado, são assustadoras as dificuldades dos mais frágeis, como os idosos, que tantas vezes sofrem em silêncio, abandonados pelos seus, pela comunidade e pelo Estado, com reformas baixas, medicamentos caros, solidão. É a falta de perspectivas dos jovens, dos menos qualificados da Europa, incapazes de se integrarem num mundo globalizado e de economia aberta e competitiva. Mas é também o desemprego de milhares de licenciados, que o mercado não integra. Todos conhecemos certamente jovens (e menos jovens) que não vêem outra solução que não a de emigrar, e recomeçam a trilhar o caminho do êxodo já visto noutros tempos – o que não tinha mal nenhum não fosse o que representa de desespero.
Temos alimentado um Estado que se tornou generalizadamente assistencialista, promovendo uma cultura de direitos sem deveres, perdendo a essencial capacidade de criar igualdade de oportunidades e acudir a quem realmente mais precisa. Um Estado protector e intervencionista, tornando-se paternalista, tornando-nos dependentes, incapacitando-nos, impedindo que asseguremos o nosso futuro com base nas nossas capacidades, no nosso trabalho. Um Estado que sorve os nossos recursos de forma preocupante e ineficiente, capturado tantas vezes por grupos de interesses, anulando a nossa capacidade de iniciativa e de criar riqueza.
É urgente construir uma sociedade de confiança, que nos faça voltar a acreditar nas nossas capacidades e nos estimule a tomar em mãos o curso do nosso destino. Isso só poderá ser feito acabando com o Estado centralista que temos, que invade as nossas vidas e decide por nós. É primordial descentralizar, tornar as decisões mais próximas dos seus interessados directos, apelando à sua capacidade criativa e inovadora, exigindo o seu empenho e a sua responsabilização.
Temos todas as condições para acreditar nos portugueses e num futuro melhor, desde que sejamos capazes de enfrentar a realidade e de criar um ambiente de liberdade e responsabilidade.
Não tenhamos dúvidas, a nossa maior riqueza são os portugueses. Para que Portugal possa vencer, a Educação é determinante, sendo o sector onde a liberdade e a descentralização são mais necessárias, confiando na sua inteligência, no seu trabalho, na sua criatividade.
Temos um sistema educativo centralista, desenhado por iluminados ao mais ínfimo pormenor, que julgam saber melhor do que todos o que é melhor para cada um. Um sistema onde o Estado é fornecedor monopolista e ineficiente, sem deixar autonomia real às escolas e liberdade de escolha aos cidadãos.
Sob a capa da inclusão e igualdade, é igualitarista e elitista, acabando a nivelar por baixo, impedindo a criação de verdadeiras oportunidades de sucesso, especialmente para os mais pobres, que na maior parte das vezes são reiteradamente condenados aos lugares do fundo da sala de aula e da sociedade.
Precisamos de liberdade para voltar a acreditar.


Ângelo Ferreira

Imagem: Promenade. Marc Chagall. 1917. Óleo s/ tela, 170x163.5. The Russian Museum, St.Petersburg.
(publicado no jornal Diário de Aveiro de 12/08/2008)

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domingo, 10 de agosto de 2008

Ei-los que chegam! Ei-los que partem! Sejam bem-vindos a casa.

Ei-los que chegam! Ei-los que partem! Sejam bem-vindos a casa.

O fim da emigração portuguesa foi anunciado algures na década de 90 do século XX. Portugal mostrava-se ao mundo como um “país moderno” de agora em diante “país de imigração”, país de desenvolvimento elevado. Mas bastaram alguns anos de crescimento lento, uma estagnação das obras públicas e a globalização que nos entrou porta dentro via Vale do Ave para percebermos que não era bem assim. Ao longo da última década, dezenas de milhares de portugueses voltaram a pegar na “valise de carton” e votaram com os pés as políticas do país. Foram para a Suíça, para o Luxemburgo, para França, para os EUA, para o Brasil, para Angola, para a Holanda, para Espanha, etc.. Por vezes redescobrimos a sua existência, como no último Europeu de Futebol ou, todos os anos, quando circulando pelo país em Agosto nos cruzamos com a sua vontade de viver um ano inteiro num curto mês de férias. A sua alegria de voltar a casa espalha-se pelo país inteiro e, de repente, Portugal fica mais completo. Sejam bem vindos a casa... Nós por cá prometemos ir construindo um país de que vocês se orgulhem.
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sábado, 9 de agosto de 2008

Em época de Jogos Olímpicos…

Confesso que desde pequena fico emocionada com os Jogos Olímpicos: com a grandeza da ocasião, a excelência que reúne, mas sobretudo com o significado tão tangível de união entre povos e harmónica convivência.

Cada vez mais, fico também fascinada com a celebração das nossas capacidades enquanto homens e mulheres, e com a força positiva que o desejo de ser melhor nos imprime.

No desfile inaugural, reparei que todos os desportistas tinham um traço comum: um olhar vivo, de orgulho e de esperança.



Devíamos viver “olimpicamente” as nossas vidas!



Já a prever o hiato até 2012 (!), aqui fica um vídeo para inspiração:





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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

O Terceiro Sector e a Politica actual - Parte I

As organizações do Terceiro Sector revestem, como é do conhecimento geral, um conjunto heterogéneo de formas jurídicas e desempenham uma função económica relacionada com três aspectos primordiais: a capacidade de satisfazer a procura insatisfeita por bens públicos (Weisbroad, 1988), de corrigir falhas de mercado, designadamente aquelas que estão relacionadas com a assimetria de informação, garantindo “confiança” aos consumidores (Hansmann, 1986, 1987) e de serem próximas das necessidades das populações afiançando maior eficiência na afectação de recursos locais escassos a necessidades locais ilimitadas.
Concretamente, em Portugal, a maior parte deste tipo de organizações é composta por Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) que têm assumido um particular protagonismo no apoio aos mais desfavorecidos. Estas organizações são responsáveis por 70% das respostas sociais em Portugal e têm servido como garantia de coesão social fruto do seu enraizamento na sociedade civil.
Com as sucessivas convulsões políticas, sociais e económicas dos últimos anos, a actividade das IPSS tem sido ameaçada colocando em causa valores sociais, a identidade da sociedade portuguesa, a assistência social a quem dela necessita e o capital de experiência acumulado em séculos de intervenção pública junto das comunidades, das famílias e dos mais carenciados.
O Estado tem contribuído para esta situação, através da instrumentalização da acção destas instituições, promovendo, gravosamente, a concorrência inter-sectorial tornando-se, desta forma, o principal patrocinador do desperdício de fundos e recursos públicos, economias de escala e sinergias sectoriais sobretudo através da banalização e esbanjamento deste capital de experiência e do património acumulados.
Relembremos, então, que estas organizações não são entidades para-públicas. A sua natureza é privada, de cariz espontâneo e voluntário, e é nesta base que se devem manter aproveitando a energia da sociedade civil para o desenvolvimento de respostas cada vez mais eficazes, inovadoras e, simultaneamente, próximas dos cidadãos e das cidadãs. Neste âmbito, o Estado deve ser um parceiro efectivo na construção de uma realidade social e educativa efectiva que responda às necessidades dos portugueses e das portuguesas de acordo com as suas escolhas, crenças, valores e visão da sociedade, numa perspectiva de valorização da diversidade e da materialização dos princípios da subsidariedade e da igualdade de oportunidades para todos.

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Leituras

Vale a pena ler a entrevista de João Lobo Antunes ao Diário Económico. Reconhecendo existir uma "gravíssima crise de valores e confiança" na sociedade portuguesa, o neurocirurgião recusa o pessimismo.

Além disso, João Lobo Antunes é um exemplo de inteligência, dedicação e sensibilidade que deve inspirar os portugueses e alimentar a nossa esperança, sabendo que é melhor é possível!

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Cuidar de Portugal

É Possível cuidar Melhor de Portugal. Para tal, é necessário promover uma cultura de rigor, responsabilidade e de avaliação.

É importante incutir e exigir maior rigor (e transparência) nas contas públicas, na qualidade dos serviços adquiridos e/ou usufruídos (pressupõe natureza gratuita dos mesmos), na informação prestada a clientes e fornecedores, no cumprimento da lei (não é opção, é obrigação), no cumprimento de prazos (não só dos pagamentos como também de tarefas), no respeito pelo tempo e espaço dos que nos rodeiam e connosco interagem (no trabalho, nos transportes, nas actividades de lazer).

Mas, é também necessário promover a responsabilidade. Os povos anglo-saxónicos utilizam a palavra empowerment que quer dizer “dar poder e responsabilizar”. É necessário acabar com uma cultura de facilitismo e de desresponsabilização. A culpa é sempre do “chefe”, da “conjuntura”, do “tempo”, em suma ... “dos outros”. Mas, quantas vezes a culpa não é, de facto, nossa? Promover a responsabilidade significa delegar poder, respeitar essa delegação e exigir resultados (que não têm que ser necessariamente positivos). Se aceitarmos os “maus resultados” e insucessos não como um estigma mas como forma de fazer melhor, estamos a promover uma cultura de responsabilidade a par de estimularmos a criatividade e inovação.

Por último, é necessário promover a avaliação rigorosa de processos, métodos, resultados. Sem avaliar não se pode ser rigoroso nem responsável. É bom, e importante, a avaliação de pessoas e métodos, mas também a auto-avaliação e a avaliação 360º (muito em voga em empresas multinacionais). A avaliação conduz à identificação de áreas de melhoria, à disseminação de boas práticas e à meritocracia. A avaliação não pode ser nem igualitária nem indiferenciada.

A promoção do rigor, da responsabilidade e da avaliação são, pois, condições essenciais para começarmos a cuidar melhor de Portugal. Basta reflectir sobre o que se pode fazer melhor se implementarmos estes três princípios de forma sistemática e generalizada na Saúde, na Educação, no Turismo, na Administração Fiscal, na Justiça, no Ordenamento do Território, na Administração Autárquica, na Cultura, no Desporto... Mas também no seio das nossas famílias, dos nossos grupos sociais e das nossas empresas.

Através do rigor, da responsabilidade e da avaliação acreditamos que “Melhor É Possível” para Portugal. E ao fazê-lo estamos a construir um futuro melhor para os nossos filhos. Ao cuidar melhor dos espaços públicos, das florestas, das ruas, das nossas casas, dos serviços que prestamos aos que nos visitam, dos resíduos que geramos, das fontes energéticas que possuímos estamos a construir uma imagem nova e um Portugal diferente. E não custa muito, se começarmos a fazê-lo já à escala e dimensão de cada um.
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“Qui non vetat peccare, cum possit, jubet”


Dignificar a acção política e os seus próprios intervenientes, é algo que carece ser encarado de forma séria e urgente. Todos sabemos a imagem que o público em geral tem acerca da “família política” e a forma como encara a sua acção (temo que a expressão “família” não esteja bem empregue). Tal como o P. António Vieira dizia que os políticos do Brasil conjugavam o verbo “roubar” em todos os tempos, modos e pessoas, receio que também a maioria dos nossos concidadãos (percepcionando uma realidade com mais 350 anos em cima e com o devido enquadramento na sociedade portuguesa contemporânea), corrobore dessa opinião mantendo-a, por isso, bem viva. Diria mesmo que a prática se generalizou, inclusive, à conjugação de outras expressões verbais. O “mentir”, o “enganar”, o “iludir” e por aí fora, passaram a fazer parte do léxico reinante.

Esta imagem pouco abonatória da classe política em geral, e em muitos casos distorcida da realidade, tem repercussões evidentes na forma como encaramos o presente, como olhamos o futuro, como percepcionamos os desafios e arriscamos a mudança. A descredibilização a que está acometida a política e os seus actores nada trás de vantajoso para a “classe”. Num Estado de Direito democrático onde a participação cívica dos cidadãos se torna determinante, este sentimento generalizado, negativo, pessimista, impele a canoa rumo ao abismo. A sofrer desta maleita, teremos um Estado frágil e tribunos, quiçá, menos responsáveis, conscientes, idóneos. A exigência e a responsabilidade devem constar do vocabulário e das práticas de todos os cidadãos, sem excepção. Só com esta rotina que se conseguirá rigor e credibilidade nesta matéria.

Esta má imagem advém, entre outras coisas, de um complexo emaranhado de realidades, mais ou menos subjectivas, postas aparentemente, e em parte, em causa pelos comportamentos e posturas que se generalizaram.

Creio estarmos de acordo que o problema é potenciado tanto pelos cidadãos “comuns” como pelos próprios políticos. Se os primeiros pecam, muitas vezes, por abdicarem de participar, de ter uma voz activa e de relegarem as suas responsabilidades para outros como se nada tivessem a ver com o assunto, os segundos actuam, não poucas vezes, como que se estivessem no Olimpo, detentores da verdade absoluta, quais entes impolutos capazes de pensar e agir pela consciência colectiva. Não de deve, no entanto, desvalorizar as devidas excepções. Já basta um Estado suficientemente pesado, burocrático, muitas vezes ineficaz e ineficiente, do que ter também alguns iluminados que subestimam tanto as capacidades dos outros como se demitem dos seus deveres.

As imagens a que por vezes assistimos na nossa Assembleia da República, do comportamento dos parlamentares, denunciam, por si só, este estado de coisas. Não se compreende o porquê de tanta inflamação, manifestação e reboliço, dos impropérios generalizados.

A consulta das actas do órgão máximo da nossa democracia será o bastante para se perceber como isto está enraizado. Já não bastava ouvir tais apartes pela televisão, como o registo solene de tais despautérios se materializa, incompreensivelmente, em tão importante documento. Será assim possível credibilizar-se a política?

Como diria o Rei gentio Agamenão, citado pelo P. António Vieira no Sermão do Bom Ladrão,

“Qui non vetat peccare, cum possit, jubet"
(Quem, podendo, não impede o pecado, ordena-o)

Haverá dúvidas?

Miguel Oliveira

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Cavaco Silva, Durão Barroso e a Blogosfera!

No recente encontro Star Tracking, que teve lugar no Campo Pequeno em Lisboa, o Presidente da República deu, sem hesitações, a sua primeira entrevista ao blog «A Substância da Vida» de Laurinda Alves (vídeo).

Segundo relato da autora da entrevista “Cavaco Silva revelou-se um presidente ‘muito à frente’ ao assumir publicamente e com “uma alegria especial” a sua condição de Star Tracker. O presidente exprimiu o enorme entusiasmo que o movimento Star Tracking lhe inspirou desde o primeiro momento e explicou que foi esse mesmo entusiasmo que o levou a pertencer à rede.” (post).

Para além de ficarmos a saber que o Presidente da República aderiu à rede por a iniciativa se aproximar de ideias que o inspiram na sua acção, ficámos ainda a saber que Cavaco Silva utiliza frequentemente a Internet, o que para muitos portugueses, avessos às novas tecnologias, não deixa de ser encorajador.

O Presidente da Comissão Europeia também foi entrevistado por Laurinda Alves no encontro e falou da “importância de termos uma dimensão europeia” e de adoptarmos uma “atitude realista, positiva e de abertura” (vídeo).

Quer o candidato democrata, quer o candidato republicano, na corrida às eleições dos EUA, criaram sites extremamente interactivos e dinâmicos. Ali encontramos, não só a apresentação dos candidatos e do respectivo projecto político, como também fotografias, vídeos, discursos, documentos, blogs, lojas on line, slogans, comentários, respostas, acções de campanha, downloads, e tudo o mais que se possa imaginar (
Barack Obama; John MacCain).

A sociedade americana vive desta forma intensa o processo eleitoral e o grau de participação política atinge tudo e todos, à escala mundial.

Não deixa de ser insólito que a socialite Paris Hilton tenha feito um vídeo cómico em resposta a um vídeo de campanha do candidato à presidência dos Estados Unidos, John McCain (notícia sol
).

E o que têm as entrevistas de Cavaco Silva e Durão Barroso a ver com a corrida às eleições nos EUA?

Não é todos os dias que o Presidente da República e o Presidente da Comissão Europeia concedem uma entrevista a um blog – por sinal foi a primeira vez!

Mas um pequeno passo pode transformar-se num grande salto. Cavaco Silva apelou no 25 de Abril a uma maior participação política dos portugueses, em especial das gerações mais novas.

Ora, a Internet tornou-se um meio de comunicação de tal forma eficaz que pode ajudar a contribuir para uma maior participação dos portugueses no debate e na acção política, sendo que tendencialmente as gerações mais novas terão maior propensão para as novas tecnologias e para o trabalho em rede.

Os políticos portugueses e os partidos têm em geral descurado a Internet como ferramenta da acção política. Um vídeo colocado na blogosfera ou um comentário a um post seu poderá ser muito mais interessante para alguns eleitores que muitos minutos de televisão.

Quantos deputados da nossa Assembleia da República investiram na criação de um site verdadeiramente dinâmico e interactivo que, para além da informação institucional, possibilite a participação em tempo real dos eleitores que o elegeram?

Quantas redes e grupos de trabalho tipo Star Tracking poderão ser criadas em Portugal?

Estarão os políticos dispostos a participar activamente nessas redes criando pontes com a sociedade civil, seduzindo os mais novos e captando aqueles que nos últimos tempos têm estado mais afastados da política?

Estou seguro que o MEP - Movimento Esperança Portugal está pronto para assumir estes desafios, de outra forma não teria posto o seu projecto de programa à discussão e participação dos portugueses, o que é inédito entre os partidos.

Cavaco Silva e Durão Barroso estiveram bem, marcando a sua presença e dando a cara no encontro Star Tracking.

Tão bem ou melhor esteve Laurinda Alves que também participou no evento e teve a ideia de entrevistar para um blog o Presidente da República, o Presidente da Comissão Europeia e Tiago Forjaz, um dos criadores do conceito.

Se a moda pegar entre os nossos políticos, não penso que alguma vez nos arrisquemos a ter uma corrida a Belém igual à que se assiste no outro lado do Atlântico, mas seguramente teremos mais e melhor participação política dos portugueses.

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Capitalismo Criativo

Importante artigo e entrevista de Bill Gates sobre Creative Capitalism, ou seja, sobre a responsabilidade social das empresas (e editorial da Time aqui)
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terça-feira, 5 de agosto de 2008

As pessoas não são abstracções

Anton Tchekov (1860-1904) é um escritor (russo) que muito aprecio, especialmente pela forma como descreve paisagens, quer reais, quer do espírito, e, assim, chega às profundezas da alma humana. No seu conto “A Minha Mulher”, recentemente publicado pela Quasi (2.ª ed.) e oferecido pelo Diário de Notícias, o senhor Pavel Anndreievitch, um abastado ex-funcionário do Ministério das Comunicações, estimulado por uma carta anónima, é tomado de preocupação com os habitantes do lugar de Pestrovo, perto da sua residência, que vivem miseravelmente, numa luta desigual contra o frio, a fome e uma epidemia de tifo.

Tendo resolvido fazer uma generosa doação de dinheiro aos famintos, reflectia na melhor forma de o aplicar. Pensou em comprar trigo e distribuí-lo, mas a tarefa era enorme para um só homem e tinha receio de agir precipitadamente, correndo o risco de socorrer quem menos precisava ou mesmo beneficiar algum explorador de camponeses pouco escrupuloso.

Pavel, tendo pensado recorrer à Administração da Província, logo recuou, pois não tinha nenhuma confiança nos seus burocratas, que considerava materialistas e sem ideais. Dizia mesmo que os funcionários das repartições do distrito, tendo tomado o gosto aos proventos do Estado, «insaciavelmente abririam as suas goelas para se fartarem com alguma nova receita suplementar».

Esta pequena história, com o devido distanciamento, trouxe-me à cabeça alguns aspectos que merecem reflexão no actual contexto de crescentes dificuldades sócio-económicas, que têm feito aumentar assustadoramente o número de pessoas e famílias em situação de fragilidade.
É preciso construir uma sociedade de confiança e mais solidária, onde todos assumam o seu papel, vendo os mais necessitados como pessoas concretas e não como números, abstracções científicas ou políticas, ou mesmo como vergonhosa fonte de receita.

Os avultados recursos que depositamos nas mãos do Estado – essa entidade tantas vezes vista igualmente como uma abstracção, todos e ninguém, uma complexa multiplicidade de estruturas e serviços, uma fonte de rendas – nem sempre servem os mais necessitados, sendo muitas vezes aplicados em programas centralistas, assistencialistas, desfasados das diferentes realidades locais e pessoais.

OMovimento Esperança Portugal” (MEP), do qual faço parte, defende como prioridade da acção política a construção de uma “Mesa com Lugar para Todos”, que é o mesmo que dizer que não podemos deixar ninguém para trás, que não podemos admitir o abandono dos mais vulneráveis, dos mais necessitados. Como nem sempre a pobreza é visível, é preciso espreitar no escuro, nos vãos de escada da sociedade, e olhar aqueles que precisam nos olhos, estendendo-lhes uma mão amiga, que os levante do chão.

Mas esta Mesa é um lugar em construção, que todos temos de ajudar a pôr, e que vai muito para lá de uma rotineira sopa para pobres. Se é urgente e irrecusável fazer frente às necessidades mais básicas, deve sempre procurar garantir-se a dignidade da pessoa ajudada e, na medida do possível, integrá-la nessa dinâmica de construção, em vez de perpetuar um assistencialismo frio e desresponsabilizante. A ajuda não pode revelar-se diminuidora do potencial da pessoa humana, escravizada na bondade, nem a pobreza pode tornar-se negócio do infortúnio.

O MEP defende, também neste sentido, que o Estado deve respeitar o Princípio da Subsidiariedade, descentralizando e sendo parceiro de dinâmicas locais e comunitárias, fortalecendo-as, em vez de as substituir ou procurar anular. Na ajuda aos mais necessitados, ganha especial relevância o apoio às instituições que estão no terreno, especialmente as do sector social, que melhor conhecem as pessoas, os seus contextos familiares e sociais, as suas necessidades e potencialidades, garantindo uma melhor eficácia na aplicação dos recursos, desde logo com cuidada atenção à sua dignidade e numa dinâmica de plena reintegração.

Exigir que ninguém fique fora da mesa é também exigir o cumprimento destes valores e da acção de cada um. Atirar a solidariedade para o Estado é fácil, serve para aliviar consciências e, com o discurso certo, para ganhar votos. Sem responsabilizar num abraço quem partilha e quem recebe, corre-se o risco de se amar toda a humanidade, sem amar nenhuma pessoa em concreto.

Ângelo Ferreira

(publicado na edição de hoje do Diário de Aveiro)
(imagem: Composition No 10, Pier with Ocean, 1915, Piet Mondrian, aqui)


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Custa Pouco ser feliz!

Tornámo-nos egoístas. Uns mais do que outros, é certo. Mas cada vez mais, valores como o amor ao próximo, a partilha ou a solidariedade, são sacrificados face aos nossos interesses particulares. Primeiro dedicamo-nos à árdua tarefa de construir uma carreira profissional de sucesso. A mesma que há-de garantir-nos a casa de luxo, o automóvel topo de gama, as roupas de marca e os sucessivos jantares nos restaurantes mais caros da cidade. A família pode por isso esperar. Os filhos chegam mais tarde – quando chegam – e cada vez em menor número. Acreditamos que só assim podemos ser felizes. A família Luís, de Chão Sobral, em Oliveira do Hospital, tem valores bem diferentes. Contudo, também é uma família feliz. Verdadeiramente feliz, diria.

Há 25 anos, o amor entre José Carlos e Cecília bastou para os juntar e juntos terem nove filhos. Sim, disse bem: nove filhos. Coisa rara nos dias de hoje. Sustentam a família, pasme-se, com menos de dois ordenados mínimos mensais. Os filhos aprenderam por isso desde cedo o significado de palavras como entreajuda, espírito de sacrifício, partilha ou humildade. E nada os impediu de terem sonhos e de, com esforço e determinação, os irem concretizando um a um. Incentivados pelos pais, todos estudam. Os três mais velhos já estão na Universidade de Coimbra. São jovens do seu tempo, como quaisquer outros. Abertos ao mundo e sedentos de conhecerem novas culturas, fazendo jus à máxima ‘a minha terra é o mundo’.

O segredo do sucesso da família Luís resume-se nas palavras de Ana, a filha mais velha: “tínhamos pouco (…), mas vivemos sempre felizes. Temos o indispensável. Somos pessoas educadas, civilizadas e cívicas. Isso é mais importante.” Uma lição de vida que nos mostra como é importante lutar pelos valores da família, da solidariedade, da partilha e do amor ao próximo. Afinal custa pouco ser feliz.

Vale a pena ver aqui a história da família Luís, numa magnífica reportagem da Fernanda de Oliveira Ribeiro.

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segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Utente – Serviço Nacional de Saúde I


Para que não fique a ideia de que esta rubrica do Utente visa unicamente criticar práticas instituídas nos mais diversos serviços com os quais me vou cruzando, hoje escreverei sobre uma excelente prática que presenciei das portas para dentro.

Fui pai pela primeira vez em Julho de 2005. Passámos nessa ocasião pelo momento mais responsabilizador das nossas vidas – sair da maternidade e trazer o nosso filho para sua casa.

Como é prática habitual nestas circunstâncias, inúmeras recomendações foram-nos dadas, entre elas, a necessidade de nos próximos dias realizarmos o “teste do pezinho” junto do Centro de Saúde da área da residência.

Chegada a hora, ligámos para o Centro de Saúde de Mafra para agendar este procedimento. Qual não foi o nosso espanto quando nos disseram que estavam dispostos a deslocar-se a nossa casa. Quais pais protectores das humidades e do vento, acedemos de imediato a essa possibilidade.

Assim, no dia certo à hora marcada, duas técnicas (creio que uma enfermeira e uma assistente social) vieram a nossa casa para fazer o teste do pezinho ao nosso filho. Na verdade, vieram fazer muito mais que isso, e é esse procedimento que gostaria de realçar.

Enquanto a enfermeira fazia o teste, a assistente social, de uma forma muito educada e subtil ia, por um lado, observando as condições reais de acolhimento doméstico existentes para o recém-nascido e, por outro, colocando questões sobre os próximos passos a levar a cabo com a parturiente (acompanhamento pós-parto) e o nosso filho (cuidados de higiene, plano de vacinações, pediatra, etc.). No final, foram-nos dadas recomendações muito precisas sobre o acompanhamento que o Centro de Saúde gostaria de dar ao nosso filho, não apenas no que toca ao plano de vacinações, mas também às apresentações periódicas (inicialmente mensais) no Centro.

Tendo experimentado esta prática na primeira pessoa, reforço o quanto me parece importante podermos, através de processos pouco intrusivos, despistar precocemente potenciais situações de negligência ou risco para os nossos recém-nascidos, e recomendo que a mesma, caso não o seja já hoje, com os devidos e necessários ajustes legais, metodológicos e processuais, seja replicada ao nível nacional.

Como o MEP defende: procedimentos simples podem ser saltos qualitativos extraordinários.

Hugo Martinez de Seabra

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sábado, 2 de agosto de 2008