segunda-feira, 9 de março de 2009

‘Quem tem lucros, não pode despedir!’

A frase e a imagem impressionam e não deixam de inspirar um sentimento de compaixão: a figura sinistra do padrão, despejando o pequeno trabalhador para um recipiente.
De há muito que o BE nos habitou a mensagens fortes com um extremo cuidado gráfico e pontaria.
Mais tarde ou mais cedo, porém, o BE haveria de enredar-se nas suas próprias contradições, fruto do seu errático relativismo moral.
Ao lado, poderia figurar uma mulher abastada a despejar uma concepção indesejada? Dir-se-ia ‘Quem tem lucro, não pode abortar!’ E por que não ‘Quem tem lucro, não pode divorciar-se!’
A esquerda libertária usa dois pesos e duas medidas para o que considera isoladamente o campo dos costumes e a política social. A plena autonomia individual é incensada na eira contra tudo o que inquisitorialmente é declarado anátema e preconceito. No nabal, que chova. O patrão deve ter liberdade para requerer o suicídio assistido, deve poder adoptar uma criança para compor o doce lar que constituiu com o seu parceiro, há-de poder divorciar-se na hora para. logo após, se juntar numa união cada vez menos de facto. Mas, despedir alguém é que não.
O despedimento movido pelo arbítrio, pela ganância, pelo simples capricho ou mesmo pela má gestão deve ser ferozmente combatido pela sociedade. O subsídio de desemprego não preenche o vazio do ócio involuntário. Atirado para o desemprego, o trabalhador é relegado à categoria das coisas, dos objectos, dos desperdícios.
E se pedir a morte antecipada ?
Pena é que o BE não tenha a mesma lucidez para descortinar em todas as relações assimétricas a mesma desumanidade. Pena é que não se desarme do preconceito de olhar para cada opositor como um braço do atavismo. Pode, no imediato, dar votos prolongar insaciavelmente a vertigem do ‘fracturante’ até estilhaçar a sociedade no atomismo do ‘corpo é meu’. Ninguém quer ficar para trás na compra do último gadget, correr à frente dos suecos ou dos holandeses.
A legitimidade, contudo, quando desafia o mais elementar princípio lógico – que vai da identidade à coerência – deixa de ser racional e tropeça na sombra do totalitário.

André Folque

5 comentários:

Mario Marques disse...

Caro André
até entendo (e partilho) as críticas de incorência que faz ao BE.
Contudo, quanto a mensagem do cartaz, ela não afirma nada de muito diferente do que aquilo que afirma o Bispo do Porto na sua menagem quaresmal:

"Responsabilidades, igualmente, de todos os empresários e dadores de trabalho. Tantos existem que tudo fazem para que as suas empresas não encerrem, ou dispensem o menor número possível. Resistem à tentação de fechar ou despedir, com o pretexto da crise. A empresários assim, devemos uma palavra de reconhecimento e estímulo. Como apelamos à consciência de quem não proceda deste modo, para que não lese a sociedade nem ofenda a Deus, condenando ao desemprego quem podia continuar a trabalhar. Também neste ponto se abra agora uma autêntica “Quaresma” empresarial, para defender e promover o trabalho e o emprego. Biblicamente sabemos que cumprir a vontade de Deus, aqui e agora, passa exactamente por aí. A vontade de um Deus “trabalhador”, assim definido pelo próprio Cristo: “O meu Pai continua a realizar obras até agora, e eu também continuo!” (Jo 5, 17)."
Claro que o estilo é totalmente diferente, mas reduzidas as afirmações aos seus termos não se diz nada de susbtancialmente diferente.

Por outro lado, o seu comentário, para ser completo, talvez tivesse também que denunciar as Leis Laborais propostas pelos partidos que sendo (e bem) contra a Liberalização do aborto aceitam toda a liberalização social e até acham normal que se pergunte em entrevistas de emprego se uma mulher pensa engravidar. É o extremo oposto daquilo que crítica no Bloco. Nesse sentido, não estaria mal que às vezes ouvissemos o que o BE diz em termos de ética social, porque às vezes denunciam bem as injustiças, mesmo que apontando soluções das que podemos discordar.

Agora, uma coisa é certa, o BE e as suas propostas a nível das chamadas liberdades pessoais só fazem sentido numa sociedade "do bem estar" e liberalizada.
Nesse sentido, os slogans que propõe colocam o dedo na ferida.O BE é incoerente? sem dúvida... mas não o são menos partidos como o PP que saõ contra o aborto, mas às vezes bem pouco cuidadosos a defender Direitos Socais que sendo ameçados com a sua cumplicidades afectam claramente famílas e, em especial mulheres, em situação de risco.
Mesmo não sendo simpatizante do BE reconheço que, às vezes, acerta.
Acerta calaramente, quanto a mim, na recusa a participar no encontro com Eduardo dos Santos.

e já agora, se estivesse no Paralemnto o MEP ia ao encontro com o Presidente Angolano?

Como provável votante do MEP, gostava de acreditar que não.

João NAR Ferreira disse...

Caro Mário,

Relativamente à sua última questão, eu tenho uma opinião divergente da sua, e não seria por este motivo nem por qualquer outro, que me recusaria a encontrar-me consigo no templo da democracia, que é o Parlamento. Nós, como seres humanistas que somos, temos de ser humildes ao ponto de reconhecer que também temos telhados de vidro (basta reviver a nosso passado histórico), até porque o errar é humano e as democracias não são perfeitas.

Eu não tenho a menor dúvida de que a diplomacia e o diálogo cooperante entre povos e religiões vão continuar a ser fundamentais na construção da paz e do desenvolvimento, na defesa dos direitos humanos, e no combate à pobreza e à exclusão no mundo.

A posição do BE só vai criar algum ruído e fracturas institucionais, mas não pontes para o futuro. E são pontes que se desejam para melhorar o futuro do povo angolano e de tantos outros que vivem em condições sub-humanas.
Ora a matriz do MEP realça essa cultura humanista das pontes.

A questão que podemos colocar à comitiva angolana, aos grupos parlamentares, e ao próprio BE é, por exemplo: o que fizeram
até hoje para dignificar as condições de vida dos angolanos, principalmente aqueles que viram os seus corpos mutilados por anos e anos de guerra?

abraço
joão

Mario Marques disse...

Caro Joao Agradeço a sua resposta.
entendo o que diz, e ate aceito que se possa (pudesse) estar presente. Mas sem nunca esquecer os atentados aos Direitos Humanos e a Liberdade.
O que se passa em Angola em que Eduardos dos Santos vive como milionario também â cusat da pobreza e do sofrimento do Povo Angolano, nao nos pode ser indiferente.
E o ter telhados de vidro nao e desculpa para o silencio. Caso contrario o Lusitânia Expresso nao teria o sentido que teve e contínua a ter.
Gostava que o MEP emitisse um comunicado claro sobre a visita a Portugal de Eduardo dos Santos em que a questao dos Direitos Humanos fosse claramente abordada.
e apenas um desejo, um sincero e forte desejo.
obrigado pela atençao

Mario Marques disse...

Fico naturalmente contente com o Bom Comunicado que o Mep divulgou.

Anónimo disse...

que comparação imbecil