terça-feira, 10 de março de 2009

Ousar e promover uma solidariedade criativa

Há notícias que provocam espanto. Um restaurante, em dificuldades financeiras e prestes a encerrar, resolve continuar de portas abertas, promovendo preços reduzidos, à medida das possibilidades dos clientes. Um senhorio aceita que os inquilinos não lhe paguem renda durante um ano, passando a ser responsáveis pela limpeza e manutenção do prédio. Uma parceria no Porto, entre a Universidade e a Câmara, permite que idosos acolham estudantes em suas casas, a troco de... companhia.
Famílias designadas de afecto recebem crianças de lares de acolhimento, em fins-de -semana e férias. O Banco Alimentar recolhe, na última campanha, um recorde de ofertas e de trabalho voluntário. Criam-se o Banco de Bens Doados, os Bancos de Tempo e o recente Banco de Medicamentos. A Autoeuropa procura novas formas de manutenção dos postos de trabalho.
Muitos mais exemplos haverá. Penso que era muito importante que os conhecêssemos.
Eis o trabalho urgente dos media. Não basta noticiar o desenrolar da crise, os números do desemprego, as empresas em risco. Há o risco de banalizar os problemas, de dessensibilizar a opinião pública.
Sem esconder a verdade, o desafio é também o de demonstrar as oportunidades, os sinais de esperança, os gestos solidários que as dificuldades despertam. As crises sociais e pessoais são momentos difíceis. De uma forma ou de outra, já todos as enfrentámos. Obrigam -nos a reflectir. A avaliar. A pedir ajuda. A mudar. A andar para a frente.
A crise actual é uma oportunidade de repensar a forma como vivemos. Construir a esperança é mobilizarmo-nos.
Ousar uma solidariedade criativa é pensar em nós com os outros. De quem precisamos e quem precisa de nós. Do que podemos fazer. Da nossa responsabilidade individual.
A muitos níveis. No nosso prédio, no bairro em que vivemos, nos espaços que conhecemos, na empresa em que trabalhamos, na escola dos nossos filhos... E fazer.
Construir de maneira diferente, ou fazer melhor o que sabemos fazer. Penso que a política também é isto. Ideias. Vontade. Realismo. Gestos. Proximidade.
É preciso acreditar. Acreditar que somos capazes. Que cada um de nós é capaz. E que todos juntos faremos um Portugal diferente.

Margarida Gonçalves Neto
in Publico, Cartas ao Director (8-03-2009)

1 comentário:

Mário Marques disse...

Um óptimo texto!
Motivador... temos candidata a CML? :)