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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

The Global Competitiveness Report 2009-2010

Índice global de competitividade - Fórum Económico Mundial
Alguns dados relativos a Portugal (relatório completo)




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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Leituras

«O exemplo

DIA DE PORTUGAL... É dia de congratulação. Pode ser dia de lustro e lugares comuns. Mas também pode ser dia de simplicidade plebeia e de lucidez.
Várias vezes este dia mudou de nome. Já foi de Camões, por onde começou. Já foi de Portugal, da Raça ou das Comunidades. Agora, é de Portugal, de Camões e das Comunidades. Com ou sem tolerância, com ou sem intenção política específica, é sempre o mesmo que se festeja: os Portugueses. Onde quer que vivam.
Há mais de cem anos que se celebra Camões e Portugal. Com tonalidades diferentes, com ideias diversas de acordo com o espírito do tempo. O que se comemora é sempre o país e o seu povo. Por isso o Dia de Portugal é também sempre objecto de críticas. Iguais, no essencial, às expressas por Eça de Queirós, aquando do primeiro dia de Camões. Ele afirmava que os portugueses, mais do que colchas às varandas, precisavam de cultura.
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Estranho dia este! Já foi uma “manobra republicana”, como lhe chamou Jorge de Sena. Já foi “exaltação da raça”, como o designaram no passado. Já foi de Camões, utilizado para louvar imperialismos que não eram os dele. Já foi das Comunidades, para seduzir os nossos emigrantes, cujas remessas nos faziam falta. E apenas de Portugal.
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Os Estados gostam de comemorar e de se comemorar. Nem sempre sabem associar os povos a tal gesto. Por vezes, quando o fazem, é de modo desajeitado. “As festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares”, disse também Eça de Queirós. Tinha razão. Mas devo dizer que temos a felicidade única de aliar a festa nacional a Camões. Um poeta, em vez de uma data bélica. Um poeta que nos deu a voz. Que é a nossa voz. Ou, como disse Eduardo Lourenço, um povo que se julga Camões. Que é Camões. Verdade é que os povos também prezam a comemoração, se nela não virem armadilha ou manipulação.
Comemora-se para criar ou reforçar a unidade. Para afirmar a continuidade. Para reinterpretar o passado. Para utilizar a História a favor do presente. Para invocar um herói que nos dê coesão. Para renovar a legitimidade histórica. São, podem ser, objectivos decentes. Se soubermos resistir à tentação de nos apropriarmos do passado e dos heróis, a fim de desculpar as deficiências contemporâneas.
Não é possível passar este dia sem olharmos para nós. Mas podemos fazê-lo com consciência. E simplicidade.
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Garantimos com altivez que Camões é o grande escritor da língua portuguesa e um dos maiores poetas do mundo, mas talvez fosse preferível estudá-lo, dá-lo a conhecer e garantir a sua perenidade.
Afirmamos, com brio, que os portugueses navegadores descobriram os caminhos do mundo nos séculos XV e XVI e que os portugueses emigrantes os percorreram desde então. Mais vale afirmá-lo com o sentido do dever de contribuir para a solidez desta comunidade.
Dizemos, com orgulho, que o Português é uma das seis grandes línguas do mundo. Mas deveríamos talvez dizê-lo com a responsabilidade que tal facto nos confere.
Quando se escolhe um português que nos representa, que nos resume, escolhe-se um herói. Ele é Camões. Podemos festejá-lo com narcisismo. Mas também com a decência de quem nele procura o melhor.
Os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância. Infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena.
Ainda hoje soubemos prestar homenagem a Salgueiro Maia. Nele, festejámos a liberdade, mas também aquele homem. Que esta homenagem não se substitua, ritualmente, ao nosso dever de cuidar da democracia.
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As comemorações nacionais têm a frequente tentação de sublinhar ou inventar o excepcional. O carácter único de um povo. A sua glória. Mas todos sentimos, hoje, os limites dessa receita nacionalista. Na verdade, comemorar Portugal e festejar os Portugueses pode ser acto de lucidez e consciência. No nosso passado, personificado em Camões, o que mais impressiona é a desproporção entre o povo e os feitos, entre a dimensão e a obra. Assim como esta extraordinária capacidade de resistir, base da “persistência da nacionalidade”, como disse Orlando Ribeiro. Mas que isso não apague ou esbata o resto. Festejar Camões não é partilhar o sentido épico que ele soube dar à sua obra maior, mas é perceber o homem, a sua liberdade e a sua criatividade. Como também é perceber o que fizemos de bem e o que fizemos de mal. Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras.
Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.
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Há mais de trinta anos, neste dia, Jorge de Sena deixou palavras que ecoam. Trouxe-nos um Camões humano, sabedor, contraditório, irreverente, subversivo mesmo.
Desde então, muito mudou. O regime democrático consolidou-se. Recheado de defeitos, é certo. Ainda a viver com muita crispação, com certeza. Mas com regras de vida em liberdade.
Evoluiu a situação das mulheres, a sua presença na sociedade. Invisíveis durante tanto tempo, submissas ainda há pouco, as mulheres já fizeram um país diferente.
Mudou até a constituição do povo. A sociedade plural em que vivemos hoje, com vários deuses e credos, com dois sexos iguais, com diversas línguas e muitos costumes, com os partidos e as associações que se queira, seria irreconhecível aos nossos próximos antepassados.
A sociedade e o país abriram-se ao mundo. No emprego, no comércio, no estudo, nas viagens, nas relações individuais e até no casamento, a sociedade aberta é uma novidade recente.
A pertença à União Europeia, timidamente desejada há três décadas, nem sequer por todos, é um facto consumado.
A estes trinta anos pertence também o Estado de protecção social, com especial relevo para o Serviço Nacional de Saúde, a segurança social universal e a escolarização da população jovem. É certamente uma das realizações maiores.
Estas transformações são motivo de regozijo. Mas este não deve iludir o que ainda precisa de mudança. O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal.
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A Sociedade e o Estado são ainda excessivamente centralizados. As desigualdades sociais persistem para além do aceitável. A injustiça é perene. A falta de justiça também. O favor ainda vence vezes de mais o mérito. O endividamento de todos, país, Estado, empresas e famílias é excessivo e hipoteca a próxima geração. A nossa pertença à União Europeia não é claramente discutida e não provoca um pensamento sério sobre o nosso futuro como nacionalidade independente.
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Há poucos dias, a eleição europeia confirmou situações e diagnósticos conhecidos. A elevadíssima abstenção mostrou uma vez mais a permanente crise de legitimidade e de representatividade das instituições europeias. A cidadania europeia é uma noção vaga e incerta. É um conceito inventado por políticos e juristas, não é uma realidade vivida e percebida pelos povos. É um pretexto de Estado, não um sentimento dos povos. A pertença à Europa é, para os cidadãos, uma metafísica sem tradição cultural, espiritual ou política. Os Estados e os povos europeus deveriam pensar de novo, uma, duas, três vezes, antes de prosseguir caminhos sem saída ou falsos percursos que terminam mal. E nós fazemos parte desse número de Estados e povos que têm a obrigação de pensar melhor o seu futuro, o futuro dos Portugueses que vêm a seguir.
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É a pensar nessas gerações que devemos aproveitar uma comemoração e um herói para melhor ligar o passado com o futuro.
Não usemos os nossos heróis para nos desculpar. Usemo-los como exemplos. Porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista.
Pela justiça e pela tolerância, os portugueses precisam mais de exemplo do que de lições morais.
Pela honestidade e contra a corrupção, os portugueses necessitam de exemplo, bem mais do que de sermões.
Pela eficácia, pela pontualidade, pelo atendimento público e pela civilidade dos costumes, os portugueses serão mais sensíveis ao exemplo do que à ameaça ou ao desprezo.
Pela liberdade e pelo respeito devido aos outros, os portugueses aprenderão mais com o exemplo do que com declarações solenes.
Contra a decadência moral e cívica, os portugueses terão mais a ganhar com o exemplo do que com discursos pomposos.
Pela recompensa ao mérito e a punição do favoritismo, os portugueses seguirão o exemplo com mais elevado sentido de justiça.
Mais do que tudo, os portugueses precisam de exemplo. Exemplo dos seus maiores e dos seus melhores. O exemplo dos seus heróis, mas também dos seus dirigentes. Dos afortunados, cujas responsabilidades deveriam ultrapassar os limites da sua fortuna. Dos sabedores, cuja primeira preocupação deveria ser a de divulgar o seu saber. Dos poderosos, que deveriam olhar mais para quem lhes deu o poder. Dos que têm mais responsabilidades, cujo “ethos” deveria ser o de servir.
Dê-se o exemplo e esse gesto será fértil! Não vale a pena, para usar uma frase feita, dar “sinais de esperança” ou “mensagens de confiança”. Quem assim age, tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á. Dê-se o exemplo de trabalho, de poupança e de investimento e a economia sentirá os seus efeitos.
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Políticos, empresários, sindicalistas e funcionários: tenham consciência de que, em tempos de excesso de informação e de propaganda, as vossas palavras são cada vez mais vazias e inúteis e de que o vosso exemplo é cada vez mais decisivo. Se tiverem consideração por quem trabalha, poderão melhor atravessar as crises. Se forem verdadeiros, serão respeitados, mesmo em tempos difíceis.
Em momentos de crise económica, de abaixamento dos critérios morais no exercício de funções empresariais ou políticas, o bom exemplo pode ser a chave, não para as soluções milagrosas, mas para o esforço de recuperação do país.

(Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, Santarém, 10 de Junho de 2009)»
António Barreto no Jacarandá

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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Os genes, a Cármen Miranda e a política

Portugal vive uma crise difícil de ultrapassar, decorrente, é certo, da crise económica internacional, mas também muito devido a problemas internos, nossos. E, quando digo nossos, digo de todos, do Estado nas suas múltiplas vertentes, das empresas, das instituições, das famílias, dos indivíduos. Isto é, todos temos, para lá das condições externas, responsabilidades na situação interna que vivemos.

Dito isto, haverá alguma fatalidade que nos condene a um determinado destino? Não. Portugal, um dos países mais antigos do mundo, com oitocentos anos de uma grandiosa história, feita de sucessos e insucessos, vale a pena e tem futuro. O nosso fado é, todos os dias, uma canção com versos por escrever.

Pensava nisto, esta manhã, não por causa de uma reflexão muito profunda, mas antes com base em coisas muito simples. Ouvia na rádio os habituais diagnósticos da difícil situação económica, com as críticas daqueles que procuram apontar os erros, as pedras no caminho, como dizia o poeta, e, assim, indicar implicitamente os esforços necessários. O tom mais derrotista, a evitar, porque não constrói, logo foi aligeirado pela música alegre de Cármen Miranda, comemorando os 100 anos do nascimento, em Marco de Canaveses, dessa cantora luso-brasileira que teve enorme sucesso internacional. Claro que, por mais alegre que seja a sua música, a nossa difícil situação não muda. Mas a sua história serve de ponto de partida para mostrar que não há nada nos nossos genes que nos condene ao insucesso.

São muitos os portugueses que constroem casos de sucesso por esse mundo fora, e também por cá, nas mais variadas e exigentes áreas, vencendo todas as dificuldades. O rol é enorme e não cabe nestas páginas. Cito alguns para ilustrar: o filósofo Espinosa, o médico cientista António Damásio e o atleta Nélson Évora.

Espinosa, um judeu português, teve de fugir num período difícil da nossa história, a par com muitos judeus perseguidos que foram por essa Europa. Alguns deles, por exemplo, foram para a Holanda e daí para a América do Norte, tendo ajudado a fundar a cidade de Nova Amesterdão, que mais tarde se veio a chamar Nova Iorque, e contribuído de forma determinante para o desenvolvimento económico dos EUA. A sinagoga mais antiga dos Estados Unidos foi fundada por judeus sefarditas, de origem portuguesa. Impressionante, não é?

António Damásio formou-se em Portugal, doutorou-se na América e por lá ficou, sendo hoje um dos maiores vultos mundiais na sua área de conhecimento. A sua investigação tem dado inestimáveis contributos para o conhecimento do cérebro humano e das emoções.

Nélson Évora é um atleta de eleição, tendo sido recentemente campeão olímpico do triplo salto, para orgulho de todos nós.

Alguns genes expulsos, alguns genes exportados e alguns genes importados fazem a grandeza de ser português, dependendo do ambiente em que se expressam e da força anímica de quem os possui. Também os Descobrimentos, essa empresa que deu mundos ao mundo e fez a primeira globalização, foram feitos por gente diversa, nascidos ou não em Portugal, mas num ambiente ambicioso de concretização. E tudo o que de grandioso se foi construindo ficou a dever-se não apenas aos vultos mais conhecidos, mas a uma enorme multidão de anónimos, de múltiplas origens genéticas, culturais e religiosas. É assim a nossa história, a nossa vocação.

Se todos acreditarmos que podemos fazer a diferença, nos mais pequenos gestos, criando o correcto ambiente de liberdade (criativa), de responsabilidade (que não atira para terceiros a culpa) e de solidariedade (que acolhe e não deixa ninguém para trás), venceremos.

Portugal tem futuro e vale a pena. Saibamos todos fazer o pequeno/grande gesto de mudança que está ao nosso alcance.

Num programa de televisão esta semana, dizia o professor Adriano Moreira que a capacidade continua cá e o que é preciso é mobilizar os portugueses. Foi por isso que aderi ao Movimento Esperança Portugal, projecto político que acredita nesta visão. É também aí, apesar do momento difícil, de desgaste e desertificação, que podemos ajudar a construir um Portugal melhor.

Como diz o provérbio chinês, lembrado pelo professor, «Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida».

Ângelo Ferreira

Publicado no Diário de Aveiro de 20/05/2009


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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Deliberação da Alfândega

Dia 29 do mês da liberdade, todos os presidentes das 86 câmaras municipais pertencentes à região norte (Conselho regional da CCDRN) assinaram a Deliberação da Alfândega que, após os devidos considerandos, assim vaticina:

«O Conselho Regional do Norte entende que:

1. Se torna imperioso instituir, em concreto, as regiões administrativas durante a próxima legislatura, reclamando dos principais actores políticos nacionais a explicitação das acções necessárias e um compromisso político firme para a concretização desse desiderato constitucional.
2. Modernizar o Estado, aprofundar a Democracia e desenvolver as Regiões é um desígnio uno cuja realização não pode esperar. Ao Estado importa conferir soluções de governação territorial, garantindo maior eficiência e eficácia na resposta aos problemas das populações e das empresas e na execução de políticas regionais. Aos cidadãos da Região do Norte, e aos de todas as outras regiões, deve ser dada a oportunidade de um papel mais activo e efectivo na construção de um País mais democrático e coeso em termos económicos, sociais e territoriais.
3. As Regiões não implicam o empolamento das despesas do Estado, nem do número de funcionários, implicam sim a redistribuição dos recursos e a transferência de serviços periféricos para as Regiões e, por isso, uma racionalização do próprio Estado.
4. Não podem existir regiões desenvolvidas e outras com atrasos estruturais; não podem existir regiões motoras e outras assistidas; não podem existir regiões despovoadas e outras congestionadas. Às regiões e ao Norte de Portugal devem ser reconhecidas as legítimas aspirações ao seu desenvolvimento, com objectivos de competitividade, num contexto de solidariedade nacional e convergência europeia.

(Aprovada por unanimidade a “Deliberação da Alfândega”, o Conselho Regional do Norte deliberou dar conhecimento da mesma a S. E. o Presidente da República, S. E. o Presidente da Assembleia da República, S. E. o Primeiro-Ministro, aos líderes de Partidos Políticos com assento parlamentar, aos Municípios, Universidades, Associações Empresariais e outras instituições de referência do tecido social, económico e cultural da Região do Norte.)»


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terça-feira, 28 de abril de 2009

Nada contra o Estado

Comemorou-se recentemente o 25 de Abril como o dia da liberdade, momento em que Portugal se livrou de uma ditadura e abriu portas a uma democracia liberal, embora, na verdade, apenas com o 25 de Novembro de 1975 tal tivesse ficado efectivamente assegurado, colocando-se uma primeira pedra sobre uma deriva totalitária de sinal contrário ao antigo regime. Muitos dos seus defensores continuam hoje na ribalta política, depois de uma mudança de “sexo” ou simplesmente travestidos de democratas.

Para muitos dos “donos” do 25 de Abril, que então tomaram as cadeiras do poder e delas fizeram sofás para a vida, a democracia e a liberdade são apenas boas quando produzem os resultados que desejam. Assim, com as devidas distâncias, um pouco ao jeito de Hugo Chavez, esse grande democrata que, tendo perdido um referendo que lhe permitiria perpetuar-se no poder, “reconheceu” a derrota apelidando o resultado de, e peço desculpa pela citação, uma vitória “de mierda”.

Talvez do mesmo tivessem tido medo os nossos políticos quando nos rejeitaram a possibilidade de votar em referendo o Tratado de Lisboa. São os mesmos que agora apelam ao voto nas eleições europeias, confiantes de que delas não sairá nenhuma vitória menos asseada.

Se os méritos de Abril ou Novembro são inquestionáveis, nem tudo o que é bom se fica a dever-lhes, nem tudo o que era muito mau acabou. 35 anos depois, grande parte da população não se entusiasma com a celebração, nem acredita muito nela. Não culpemos as pessoas. Há razões para isso acontecer, que não isentam ninguém, muito menos a classe política.

Numa sondagem recente ficámos a saber que 77% dos portugueses concorda que são cada vez mais aqueles que não se revêem nos partidos políticos, que não acreditam na política partidária. Para 72,4% a política partidária move-se por interesses próprios, em vez do bem comum, do país. 78,1% concorda que são necessárias candidaturas independentes ao parlamento. Quanto aos direitos e liberdades menos respeitados, 23,1% dos inquiridos referem a Saúde, 22,3% a Justiça e 15% a Educação – porque será?

Além disto é preciso olhar com atenção para os seguintes resultados: 39,6% defendem o reforço dos poderes do Presidente da República, sendo que 81% consideram que deveria nomear para os altos cargos públicos, 73,3% que deveria nomear para as entidades reguladoras, 66,3% que deveria intervir na definição de políticas económicas e 71,3% na definição da política externa, 76,5% que deveria ter uma maior intervenção nas questões de defesa e segurança, 70% que o direito de veto deveria ser reforçado e 80,8% que deveria ter um papel mais importante no combate à corrupção! Mais uma vez, porque será?

Num país em que o Estado se agigantou logo na Assembleia Constituinte, e que consome hoje mais de 50% da riqueza produzida – e este valor é real, não provém de nenhuma sondagem -, a imbecilidade galopante retira do baú a varinha mágica da nacionalização do “aparelho produtivo” (economia) e do paternalismo estatal sobre as liberdades (e deveres) fundamentais. E está aí um dos maiores problemas: apesar da consciência de que o “monstro” falhou, a crise veio acentuar os “brandos costumes” e acelerar esta tendência para, sempre à espera de D. Sebastião, se trocar facilmente a liberdade e a responsabilidade pela falsa e reiterada promessa de pão fácil.

Muito ao arrepio do que diz a sondagem e o bom senso, os novos arautos da estatização das nossas vidas, saudosos do PREC, consideram que o Homem falha no uso da liberdade, mas não falhará aos comandos do Estado e dos seus tentáculos.

A grande questão, pós Abril, está em saber que Estado proporcionará o melhor do Homem numa sociedade verdadeiramente livre, se aquele que requer mais individualismo (não é o mesmo que egoísmo), que responsabilize cada um de nós pelo nosso futuro, individual e colectivo, ou se aquele que centraliza numa elite, em nome de uma maioria ausente, e da desconfiança, uma inexorável mediocridade.

Num Estado que, apesar do enorme dispêndio de recursos, falha logo nos seus atributos básicos (Segurança e Justiça), não pode deixar de ser uma suprema ironia a reinvenção da máxima de Salazar: “tudo pelo Estado, nada contra o Estado”.

Ângelo Ferreira

Publicado no jornal Diáro de Aveiro de 28/04/2009


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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Leituras

Portugal é de todos (Expresso)
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Leituras

«Endividamento externo é insustentável sem crescimento nominal de 6 por cento».

Vitor Bento (Público)

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domingo, 1 de março de 2009

Leituras

«Centrámo-nos numa coisa que tem sido denominada de política de betão, mas que suponho que foi mais do que isso. Houve um alinhamento, e uso a expressão alinhamento com todos os sentidos que ela possa ter, entre empresas que vivem fundamentalmente para o mercado interno, num ambiente de fraca concorrência, e os dirigentes dos maiores partidos políticos. E isso fez com que, praticamente desde 1995, os grandes problemas da competitividade externa das Pequenas e Médias Empresas (PME) não fossem tratados. E os sinais já cá estavam há muito tempo, com a redução prevista e efectiva de postos de trabalho nos nossos sectores tradicionais, com arranque muito lento de novas iniciativas em áreas tecnologicamente mais evoluídas e na maior parte dos casos à custa de grande subsidiação, criando-se uma espécie de ilhas para grandes investimentos estrangeiros. 

Ainda hoje é possível ouvir o Governo, este como outro de outro partido, "encher a boca" com os 1200 milhões de euros de exportações da Qimonda, sem nunca dizer que o valor acrescentado é um sexto disso. Há uma disponibilidade para apoiar grandes projectos que ficam completamente dependentes dessa subsidiação e o Governo acaba por ficar refém desses projectos sob pena de ficar responsável pelos despedimentos. Tudo isso distrai a atenção de um trabalho mais profundo, com melhores resultados em termos de emprego que seria o de criar condições mais fáceis para as nossas PME.»

Ferraz da Costa em entrevista ao Público

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Esperança no futuro

Ontem, o Primeiro-ministro de Portugal José Sócrates afirmou que no próximo ano, de 2009, “as famílias portuguesas irão ter mais rendimento disponível”, porque a taxa de juros será mais baixa, a inflação será inferior e o preço dos combustíveis também serão mais baixos do que em 2008.

Esta afirmação só é verdadeira para as famílias portuguesas, que em 2009, os membros do seu agregado continuem a ter emprego, mas com salários superiores à média nacional.

Para as restantes famílias portuguesas, o próximo ano aparece muito sombrio, porque se perspectiva um aumento da taxa de desemprego, um aumento do vínculo dos contratos laborais precários e muitos com salários insuficientes para superar o limite da pobreza.

O ano de 2009 tem de ser Melhor para todas as famílias portuguesas, esse tem de ser o objectivo de todos os políticos e de todas as suas politicas.

Isto é possível se não deixarmos ninguém excluído, se melhorarmos as condições para a criação de novos postos de trabalho, se apoiarmos as instituições de Solidariedade Social / Terceiro sector, se apoiarmos mais a recuperação de imóveis do que a aquisição de novas casas e se envolvermos todos os portugueses na construção de um Futuro Melhor para o nosso país.
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domingo, 21 de setembro de 2008

Atiraram bolas (...) e com isso transformaram-se em verdadeiros heróis

Sinto um enorme orgulho pelos atletas praticantes de desporto adaptado, nossos concidadãos, que transformam as suas limitações, superando-se a si próprios, e dando-nos uma lição extraordinária de vida.

Porque merecem ser lembrados, aqui fica a apresentação da Delegação de Portugal aos Jogos Paraolímpicos Pequim 2008.

Rui Ivo Lopes
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domingo, 24 de agosto de 2008

Portugal no contexto global


Há fortes razões de esperança para acreditar que Portugal pode desempenhar relevante papel à escala global. Sabemos, também, É Possível fazer Melhor.

As razões de esperança surgem nos mais diversos domínios: desporto (que não é apenas futebol), investigação, política, economia, arquitectura, cultura... Todos podemos identificar portugueses que são reconhecidos à escala global, pelo menos nas áreas em que actuam: Figo e Cristiano Ronaldo; Durão Barroso, António Guterres e Mário Soares; António Sobrinho Simões e Manuel Damásio; José Saramago, Siza Vieira e Paula Rêgo. Cada um recordar-se-á de outros tantos “portugueses globais”, podendo mesmo discordar dos exemplos dados. Pois bem, esse exercício de sã discordância reforça ainda mais a ideia inicial: há razões de esperança para acreditar que estes e muitos outros portugueses podem contribuir para um Portugal mais activo à escala global.

Importa, pois, continuar a promover e apoiar, sob uma política de promoção externa que agregue todas as iniciativas sectoriais levadas a cabo por diferentes ministérios e organismos, o que de melhor fazem os portugueses à escala global. Não será difícil, nem inovador (uma vez que já existe noutros países), promover Portugal nas suas múltiplas facetas à escala global. É importante continuar a apostar em grandes campanhas de marketing e eventos internacionais organizados por Portugal (a Expo 98 e o Euro 2004 foram bons para Portugal). Mas, é também importante saber gastar melhor, desenvolvendo maiores sinergias, concentrando apoios e evitando desperdícios.

Pode o Luís Figo ajudar na recandidatura de Durão Barroso a um segundo mandato em Bruxelas? Ou José Saramago promover o estreitamento das relações económicas entre Portugal e a América Latina? Os exemplos servem apenas como tal. É necessário olhar para o que se fez bem e procurar fazer melhor quebrando preconceitos e estereótipos.

Portugal pode e deve também criar condições para tirar proveito de fenómenos que se produzem actualmente à escala global, como seja a crescente mobilidade e as tendências demográficas (leia-se, o envelhecimento da população). A primeira contribuirá para o desenvolvimento do sector do Turismo em Portugal que continua a oferecer excelentes condições em termos de diversidade e qualidade. Todavia, é necessário promover uma cultura de rigor na forma como cuidamos e tratamos do nosso País. E, já agora, da forma como recebemos os nossos visitantes.

Por outro lado, o envelhecimento da população e a subsequente crescente procura de cuidados de saúde, representam importantes desafios ao desenvolvimento do sector da Saúde em Portugal.

Não faltam, pois, razões de esperança e condições para poder dizer que “Melhor é Possível”.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Nelson


Nelson Évora conquistou, em Pequim, a medalha de ouro de Triplo Salto. A primeira numa disciplina técnica do atletismo e a quarta conquistada por portugueses em Jogos Olímpicos.
Parabéns!
Nota: Em todos os trabalhos, é fundamental saber manter o rumo. A pressão, as contrariedades e a confusão sempre aparecem mas, se fizemos as nossas escolhas e nelas pusemos a nossa confiança, não podemos tirar os olhos do objectivo, pois se o fizermos, vamos acabar à deriva.
Desta história, fica um ensinamento para Portugal e para os portugueses: precisamos de aprender a confiar no nosso trabalho e de viver cada fase do processo nos tempos certos. O momento da avaliação é o último de todos...

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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A transmissão do testemunho

Sobre as atitudes e comportamentos das novas gerações recai frequentemente um olhar severamente crítico, carregado de desconfiança sobre o futuro. Não é rara uma expressão de pessimismo generalizando que as coisas nunca estiveram tão mal, o que, se pensarmos bem, com apurado sentido de justiça, não corresponde à verdade. Nem tudo está bem, é certo, e não deve ser desvalorizado, mas será correcto atirar para os ombros dos mais novos o peso de todas as nossas frustrações?
A construção de um país mais desenvolvido e equilibrado, mais rico e solidário, passa certamente pelo fomento de uma sociedade mais livre e responsável, mais capaz e ambiciosa. Ora, sem dúvida alguma, isso passa pelos nossos jovens que, por definição, são o nosso futuro. No entanto, para que seja possível essa conquista, é imprescindível garantir o ambiente e as condições necessárias, assim como estabelecer os devidos padrões de comportamento, de trabalho e exigência.
Todos sabemos que sem conhecer e compreender o passado, ou sem trabalhar com dedicação e sensibilidade o presente, não há futuro bem sucedido. Na preparação do futuro toma lugar de primeira linha a Educação formal, tema a que voltaremos brevemente. Mas a Educação das pessoas, dos jovens, a sua preparação para enfrentar os desafios da vida, não se fica apenas pelo sistema educativo – é muito mais e está relacionado também com o exemplo que lhes transmitimos. Neste sentido, creio que terá especial relevo o respeito pela nossa História e pelo nosso património, forma única de saber quem somos.
Este fim-de-semana prolongado tive a oportunidade de visitar alguns lugares dessa memória colectiva, monumentos nacionais de grandiosa beleza, que estão transformados em museus: o Palácio da Pena (Sintra) e o Palácio Nacional de Mafra. Pude ainda visitar o Museu do Oriente, da Fundação com o mesmo nome.
Os museus têm um papel extremamente decisivo na preservação de referências fortes da nossa identidade e na sua promoção, quer junto de nacionais, quer junto de visitantes de outras paragens, sendo também elemento crucial para a promoção turística do país, com forte impacto nas nossas receitas. O património histórico tem igualmente, é claro, uma função educativa de grande valor, complementar aos livros, manuais e professores. Os museus, seja em que área for, são imprescindíveis lugares de contacto com a realidade, com o conhecimento, e assim com a capacidade de sonhar, de ambicionar.
A simbologia e a “utilidade” que tem o património nacional obriga-nos a mantê-lo em boas condições de conservação e a exibi-lo com dignidade – é um sinal de inteligência e um imperativo moral. Há países europeus que o fazem com grande qualidade, bastando ver o caso da Inglaterra, da Espanha, da França, da Itália. Infelizmente, com excepções, não me parece ser o caso de Portugal.
Em contraste com o Museu do Oriente, onde o serviço é de grande qualidade, em todos os pormenores, nos Palácios Nacionais pude mais uma vez confirmar, com enorme preocupação, uma degradação do património e um serviço muito abaixo do desejável. É chocante este desprezo pelo que é nosso. Ainda que involuntário, é inadmissível.
Verifica-se em muitos casos uma grave degradação do património, por falta de conservação e restauro, e nalguns casos, como o de Mafra, um restauro deficiente. Mas é também fraca a qualidade do serviço prestado, especialmente no que concerne à informação disponibilizada nos locais, à “legendagem” dos espaços, das peças e do seu contexto histórico. Em grande parte dos casos as coisas limitam-se a estar ali, abandonadas a uma espécie de vazio histórico, cultural, humano, sem vida. Deve somar-se a este infortúnio a falta de edições de qualidade (livros, postais, outros elementos), actuais, relativas aos elementos em causa, que os promovam condignamente, e que sejam apetecíveis, tornando-se fonte de receita adicional.
A acreditar que só não se faz melhor por falta de verbas, a incapacidade de gerar receitas próprias está, assim, intimamente relacionada com a degradação. Tudo isto fruto de uma política cultural altamente centralista, que inibe a iniciativa dos responsáveis mais directos pelo património, como os directores de museus, e os desresponsabiliza da busca de soluções criativas e da apresentação de resultados.
Depois de um sábado intenso de visita a Sintra, em que a beleza natural e das obras dos nossos antepassados compensou largamente alguns dos aspectos referidos, ainda tentei fazer uma visita ao Museu Nacional do Traje, mas sem sucesso. Cheguei perto das 18h, tendo ficado a saber que só se podia entrar até às 17h30. Este é outro problema grave, o dos horários tantas vezes inadequados, por não servirem quem devem servir, os potenciais visitantes, desde os turistas aos portugueses que trabalham e estudam. Será ele também explicado pelo centralismo improdutivo do Estado? Por que razão não podem, por exemplo os museus, estar abertos num período pós-laboral ou mesmo nocturno?
É urgente e decisivo descentralizar a gestão destes recursos, dando-lhes mais autonomia, flexibilidade e capacidade de gerar criatividade e receitas próprias, responsabilizando-se quem directamente os superintende, exigindo-se outro serviço público.
Há grandes motivos de esperança no nosso futuro e dos nossos jovens. Saibamos transmitir-lhes um outro testemunho.
Ângelo Ferreira
Publicado na edição do Diário de Aveiro de 19/08/2008

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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Parabéns Vanessa Fernandes!

Vanessa Fernandes conquista medalha de prata no triatlo olímpico

Vanessa Fernandes acaba de nos dar uma grande alegria. Ficamos contentes sobretudo por ela e pelo que a medalha siginifica de compensação para o seu esforço e dedicação, assim como daqueles que a apoiam.
Mas, neste momento de alegria, coroado com uma medalha olímpica, não podemos deixar de enviar um abraço aos outros atletas que não subiram ao pódio e deram o seu melhor. Também eles são dignos do nosso apoio, da nossa admiração.
Não quer isto dizer que não tenhamos o direito de ser exigentes e de sonhar com medalhas, porque temos. E não devemos, como diz Margarida Neto no texto anterior, resignar ao tradicional queixume e desresponsabilização.
Um abraço especial a Francis Obikwelu, sobretudo pelo que ele representa de humildade e simplicidade, mas também pelo símbolo que ele é de e para Portugal, que tantas alegrias já nos deu, vestindo orgulhosamente as cores nacionais. Ele é também o símbolo daquilo que para mim representa "ser português", o que extravaza muito as fronteiras físicas, o local de nascimento, a raça, a cultura, a religião. No fundo, "ser português" bem podia significar "ser universal", nessa vocação para o mar, porto de partida e chegada permanentes.

Ângelo Ferreira
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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Liberdade para acreditar, educação para ganhar


O actual momento em Portugal é difícil, muito difícil. Não o será para todos, é certo, e é preciso reconhecer que vivemos muito melhor, em regra, do que os nossos pais. Mas isso começa a ser uma espécie de prémio de consolação, pois todos sabemos o quanto devíamos estar melhor. No entanto, afastamo-nos cada vez mais dos nossos parceiros europeus, e somos ultrapassados pelos recém-chegados ao clube europeu. Será motivo para desesperar? Não, antes para acreditar e lutar, mas com os pés assentes no chão.
O que não podemos é deixar-nos levar pelas aparências ou ir em facilitismos. O problema é sério e não tem solução fácil nem milagrosa. Depende de todos. E não basta o discurso do “Portugal positivo” – é preciso acompanhar com a prática do “trabalho positivo”. Devemos cultivar a esperança e fundá-la no esforço, no trabalho dedicado, na educação, no rigor, na justiça para todos, na igualdade de oportunidades, na exigência, na solidariedade.
Vivemos uma espécie de embriaguez, teimando em não acordar, talvez com receio da ressaca, que, no entanto, se vai apoderando do nosso dia-a-dia.
Não nos deixemos levar pelas aparências, porque em muitos casos é disso mesmo que se trata, de pura aparência, com muita gente a gastar acima das reais possibilidades, a viver irresponsável e perigosamente de créditos para tudo e para nada, até para umas “férias aspirina”, que escondam a agonia. Vidas que são castelos de açúcar, frágeis, próximos da derrocada em cada fim de mês, quando é preciso cruzar as contas com a folha de vencimento. Tudo isto com o beneplácito e até o estímulo de governos irresponsáveis, que gostam de vender sonhos ao desbarato ou de torturar as estatísticas a seu favor.
Por outro lado, são assustadoras as dificuldades dos mais frágeis, como os idosos, que tantas vezes sofrem em silêncio, abandonados pelos seus, pela comunidade e pelo Estado, com reformas baixas, medicamentos caros, solidão. É a falta de perspectivas dos jovens, dos menos qualificados da Europa, incapazes de se integrarem num mundo globalizado e de economia aberta e competitiva. Mas é também o desemprego de milhares de licenciados, que o mercado não integra. Todos conhecemos certamente jovens (e menos jovens) que não vêem outra solução que não a de emigrar, e recomeçam a trilhar o caminho do êxodo já visto noutros tempos – o que não tinha mal nenhum não fosse o que representa de desespero.
Temos alimentado um Estado que se tornou generalizadamente assistencialista, promovendo uma cultura de direitos sem deveres, perdendo a essencial capacidade de criar igualdade de oportunidades e acudir a quem realmente mais precisa. Um Estado protector e intervencionista, tornando-se paternalista, tornando-nos dependentes, incapacitando-nos, impedindo que asseguremos o nosso futuro com base nas nossas capacidades, no nosso trabalho. Um Estado que sorve os nossos recursos de forma preocupante e ineficiente, capturado tantas vezes por grupos de interesses, anulando a nossa capacidade de iniciativa e de criar riqueza.
É urgente construir uma sociedade de confiança, que nos faça voltar a acreditar nas nossas capacidades e nos estimule a tomar em mãos o curso do nosso destino. Isso só poderá ser feito acabando com o Estado centralista que temos, que invade as nossas vidas e decide por nós. É primordial descentralizar, tornar as decisões mais próximas dos seus interessados directos, apelando à sua capacidade criativa e inovadora, exigindo o seu empenho e a sua responsabilização.
Temos todas as condições para acreditar nos portugueses e num futuro melhor, desde que sejamos capazes de enfrentar a realidade e de criar um ambiente de liberdade e responsabilidade.
Não tenhamos dúvidas, a nossa maior riqueza são os portugueses. Para que Portugal possa vencer, a Educação é determinante, sendo o sector onde a liberdade e a descentralização são mais necessárias, confiando na sua inteligência, no seu trabalho, na sua criatividade.
Temos um sistema educativo centralista, desenhado por iluminados ao mais ínfimo pormenor, que julgam saber melhor do que todos o que é melhor para cada um. Um sistema onde o Estado é fornecedor monopolista e ineficiente, sem deixar autonomia real às escolas e liberdade de escolha aos cidadãos.
Sob a capa da inclusão e igualdade, é igualitarista e elitista, acabando a nivelar por baixo, impedindo a criação de verdadeiras oportunidades de sucesso, especialmente para os mais pobres, que na maior parte das vezes são reiteradamente condenados aos lugares do fundo da sala de aula e da sociedade.
Precisamos de liberdade para voltar a acreditar.


Ângelo Ferreira

Imagem: Promenade. Marc Chagall. 1917. Óleo s/ tela, 170x163.5. The Russian Museum, St.Petersburg.
(publicado no jornal Diário de Aveiro de 12/08/2008)

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segunda-feira, 28 de julho de 2008

Brancos, Pretos, Ciganos e os Jogos Olímpicos

Ensina-nos a teoria que qualquer “grupo étnico” tem tendência a concentrar-se em bairros, quando ocorrem as circunstâncias para isso, como um mecanismo de protecção, solidariedade e afirmação da sua identidade “étnica”. Foi também este o caso de Portugal nas décadas de 60 a 90. Estes bairros, surgiram de forma progressiva. Casa a casa, rua a rua. Vizinho escolhendo e aceitando o próximo, aprendendo a conhecê-lo. Bairros em que as origens tinham importância na manutenção de laços culturais e em que a integração social se fazia por via de solidariedades e particularismos locais. Na década de 90, estes equilíbrios foram alterados por via de processos de realojamento necessários mas pouco equilibrados e, sobretudo, mal pensados. As boas intenções geraram integrações forçadas, convivências não preparadas e conflitos latentes à espera de oportunidade. Pois bem, a anomia social, de que a sociedade actual sofre, fez surgir a oportunidade e os conflitos são hoje manifestos. Os casos que vão enchendo os jornais, mostram como as políticas nacionais ou locais podem ser tão seally como a season em que vivemos. O diagnóstico está há muito feito. Agora é necessário tratar a doença.

Por outro lado, de quatro em quatro anos chegam os Jogos. Descobrimos países que não conhecíamos. Desportos onde os grandes perdem para os pequenos, os favoritos para desconhecidos e os veteranos por vezes superam os jovens. No caso português, descobrimos também que os portugueses já não são todos brancos, baixos e de bigode, mas que os há de todos os tamanhos, sexos e cores (e com ou sem bigode). Nos Jogos sentimos orgulho nos portugueses que nasceram na Nigéria, em Moscovo, em São Tomé, em Paris, em Caracas, na Costa do Marfim, em Cabo Verde, no Porto, em Lisboa, em Coimbra ou em Montemor o Velho. Sentimos orgulho, não nas suas vitórias, mas por estarem lá, representando o nosso país, um país onde cabem todos. Ora, se cabem todos num país não caberão todos na nossa sociedade?

Que o espírito dos Jogos vos acompanhe.

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domingo, 27 de julho de 2008

Pizza: uma alavanca para o desenvolvimento regional

"A abertura de uma pizzaria, e a onda de visitantes que esse acontecimento promoveu, deu vida nova à aldeia de Pedralva, no sudoeste algarvio, que irá receber investimentos de renovação urbana e equipamentos de 1,8 milhões de euros. É a resposta das entidades públicas ao renascimento da aldeia que, nas últimas décadas, definhou lentamente com a perda de população.

A instalação de uma pizzaria, cuja afirmação já ultrapassou fronteiras, trouxe cada vez mais visitantes, motivou a abertura de outros negócios e conseguiu inverter o declínio social. Nos últimos anos, a aldeia rural, com apenas nove habitantes, começou a ser procurada por pessoas de todas as regiões."

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Parabéns!

Investigadora portuguesa recebe 2,25 milhões de euros do European Research Council

"A este primeiro concurso de Bolsas Avançadas da European Research Foundation concorreram 2167 investigadores: 766 na área das Ciências da Vida e Medicina, 997 na área da Física e das Engenharias e 404 nas Ciências Sociais e Humanidades.

Os investigadores concorrentes tinham uma média de idades de 52 anos e provinham de 50 nacionalidades. As mulheres representavam 14 por cento dos concorrentes. Apenas um por cento dos investigadores candidatos eram portugueses, metade dos quais mulheres."



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segunda-feira, 21 de julho de 2008

Em papel...



"Investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa desenvolveram os primeiros transístores com papel, uma descoberta que pode permitir a criação de sistemas electrónicos descartáveis a baixo custo."



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quinta-feira, 17 de julho de 2008

Nunca Desistas!

De 6 a 17 de Setembro decorrem em Pequim os Jogos Paraolímpicos. Estamos apenas a 51 dias mas é dificílimo encontrar referências aos nossos atletas. Devia causar vergonha a forma como a Sociedade em geral, e a Comunicação Social em particular, trata o desporto adaptado. Do Estado não há apoios condignos (enquanto os atletas olímpicos recebem 22 mil euros anuais os paraolímpicos recebem 5 mil; o prémio para atletas medalhados com ouro é de 10 mil euros para um paraolímpico e de 3 vezes mais para um olímpico). Apesar da comitiva portuguesa ter sido apresentada a 30 de Junho não há qualquer referência (por exemplo, nos sites do Instituto do Desporto de Portugal, do Instituto Nacional para a Reabilitação e no da Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes) aos 33 atletas que nos vão representar nas modalidades de atletismo, boccia, ciclismo, equitação, natação e vela, num total de 39 provas. Não há um reconhecimento social traduzido, por exemplo, em patrocinadores que possibilitem o financiamento destas modalidades que compreensivelmente são mais dispendiosas. Em Março, o atleta Fernando Ferreira confidenciava-me que apesar de a selecção nacional de boccia – que integra – já estar apurada, subsistiam problemas de verba para a deslocação a Pequim sendo que a equipa portuguesa competirá em desvantagem por não ter conseguido realizar treinos de habituação ao local das provas.

E contudo …
- Em Pequim 2008, a vela portuguesa estará representada pela primeira vez nos Jogos com a participação de Bento Amaral e Luísa Silvano! (ver post de 3 de Julho http://melhorepossivel.blogspot.com/2008/07/isto-fantstico.html )
- Em Atenas 2004, obtivemos 12 medalhas, 6 das quais na modalidade de Boccia!! (hmmm, esperem lá! Estes não são aqueles que têm dificuldades em obterem apoios??)
- Desde a 1ª participação, em 1972, em Heidelberg (Alemanha), Portugal ganhou 76 medalhas em Jogos Paraolímpicos (24 de Ouro; 24 de Prata e 28 de Bronze)!!! (as informações encontradas são contraditórias pois há quem diga que foram mais);

(Estes feitos desportivos nascem concerteza de um trabalho árduo e persistente, pelo que, para além destes, presumo ainda muitos outros, desconhecidos da maioria, em campeonatos mundiais e outras provas).

Da surpresa pela desconsideração surge a surpresa da teimosia destes nossos concidadãos que, com a sua tenacidade, perseverança e coragem, conquistam sempre mais, desafiando-se a si próprios, relativizando de forma assombrosa aquilo que julgamos serem as suas limitações e, ainda por cima!, ultrapassando os obstáculos que nós, consciente ou insconscientemente, enquanto sociedade deixamos que lhes aconteçam. A eles que teimam em não desistir (como é o lema do atleta João Correia – http://www.joaocorreia.com/)

Não é uma questão de mais ou menos medalhas! É uma questão do caminho que se percorre para alcançar os sonhos mostrando como das dificuldades se concretiza esperança e de que matéria são feitos os verdadeiros heróis. Daqueles que habitam o Olimpo. E onde estes nossos atletas já estão há muito, por direito próprio.
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