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terça-feira, 5 de maio de 2009

30 anos da ADERAV

Comemorou-se este domingo à noite, com jantar no Centro de Congressos de Aveiro, o 30.º aniversário da ADERAV (Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro).

Durante o jantar foi homenageado um dos seus fundadores, Amaro Neves, e, assim, simbolicamente, todas as pessoas que nela se têm dedicado, nestes já longos 30 anos, ao estudo, à publicitação e à defesa do património natural e cultural da região. Nada de mais justo, sobretudo num país onde o património serve para embelezar discursos de conveniência e ocasião, mas rapidamente passa a letra morta da inacção e omissão de responsáveis.

Mas, é importante sublinhá-lo, somos todos responsáveis pelo estado do nosso património, da nossa cultura, da nossa natureza, da nossa história. Por isso, num país onde, como dizia o presidente da ADERAV, Luís Souto, no seu discurso, tudo se pede ao Estado, é de enaltecer e apoiar, num exercício de cidadania baseado em deveres, e não apenas em direitos, a actividade voluntária de pessoas que lutam pelo estudo e defesa do património e da história comuns.

Infelizmente, qualquer passeio pelo nosso (ainda) belíssimo país nos abrirá as portas do desprezo com que grande parte do nosso património natural e cultural é tratado. Bastará, para sentir a gravidade da situação, olhar o estado de degradação de alguns dos grandes monumentos ou o cuidado negligente a que estão entregues e imaginar o fado daqueles que são considerados de menor estatuto. Bastará ver a falta de sinalização adequada e de informação esclarecedora. Bastará olhar a paisagem, tantas vezes vilipendiada pelo fogo ou por outras indiscutíveis acções humanas, como a construção desordenada, de duvidosos gosto ou utilidade.

A defesa do nosso património não consubstancia apenas um gesto de bondade humana e respeito pelo nosso legado natural, histórico e cultural. É, acima de tudo, um acto de inteligência. A sua preservação pode e deve gerar recursos determinantes para o nosso desenvolvimento e bem-estar. Veja-se, especialmente num período de crise tão difícil, as receitas que o turismo cultural e de natureza podem criar, tornando-se uma importante fonte de riqueza e emprego.

Para que o nosso património se transforme nesse instrumento de criação de riqueza é necessário, desde logo, que se preste uma maior atenção e apoio ao trabalho desenvolvido por associações como a ADERAV, tidas como importantes parceiros locais na sua defesa e promoção, envolvendo os cidadãos nessa determinante tarefa. É também urgente uma descentralização que nos liberte de um poder desfocado e distante, sem rosto e sem olhos para a diversidade, permitindo maior responsabilidade local, maior liberdade criativa, assim como maior exigência directamente exercida pelos cidadãos. É necessária uma melhor articulação regional dos recursos existentes, nomeadamente técnicos, abandonando a “lógica de capelinha” e ganhando em economia de escala, actuando em parceria na sua promoção, quer nacional, quer internacional. É urgente a liberdade e responsabilidade na actuação que estimule a inovação na promoção e gestão do património como, por exemplo, a diversificação de horários de abertura (por que não à noite em vez do proibitivo horário diurno?), a obtenção de apoios de mecenas (legislação mais favorável/abate nos impostos), o estabelecimento de parcerias (locais, nacionais ou internacionais, também com privados) ou a procura de receitas próprias (edição de obras e outros materiais) – veja-se o caso dos museus, cujas receitas revertem para um organismo central, que depois as gasta (distribui) sem olhar aos méritos da angariação, tornando-se num estímulo ao desinteresse e à inacção.

Para terminar, adapto as perguntas de grande simbolismo do presidente da ADERAV no referido jantar. Alguém consegue imaginar um mundo onde as Pirâmides do Egipto ou a Acrópole de Atenas sejam apenas desenhos num antigo vaso depositado num Museu? Alguém consegue aceitar um mundo onde animais selvagens como o tigre, o leão, o elefante, mas também tantos outros seres vivos, como os da Ria de Aveiro, sejam meras ilustrações de uma natureza para sempre perdida? Alguém consegue imaginar Portugal sem os Jerónimos ou a Torre de Belém? Alguém quer imaginar Aveiro sem o Museu, a Capitania, a Cerâmica Campos ou a Casa Major Pessoa? Alguém aceita perder o paraíso ecológico que é a Ria de Aveiro? Não. Por isso é que o contributo dado pela ADERAV para a preservação e promoção do nosso património é tão importante e merece louvor e apoio. Por isso é tão determinante a atenção e o apoio de todos.

O nível civilizacional de um povo mede-se seguramente pela forma como este concilia progresso, património e memória. Um país sem memória é um país sem futuro.

Ângelo Ferreira

Publicado no Diário de Aveiro de 5/05/2009


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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A transmissão do testemunho

Sobre as atitudes e comportamentos das novas gerações recai frequentemente um olhar severamente crítico, carregado de desconfiança sobre o futuro. Não é rara uma expressão de pessimismo generalizando que as coisas nunca estiveram tão mal, o que, se pensarmos bem, com apurado sentido de justiça, não corresponde à verdade. Nem tudo está bem, é certo, e não deve ser desvalorizado, mas será correcto atirar para os ombros dos mais novos o peso de todas as nossas frustrações?
A construção de um país mais desenvolvido e equilibrado, mais rico e solidário, passa certamente pelo fomento de uma sociedade mais livre e responsável, mais capaz e ambiciosa. Ora, sem dúvida alguma, isso passa pelos nossos jovens que, por definição, são o nosso futuro. No entanto, para que seja possível essa conquista, é imprescindível garantir o ambiente e as condições necessárias, assim como estabelecer os devidos padrões de comportamento, de trabalho e exigência.
Todos sabemos que sem conhecer e compreender o passado, ou sem trabalhar com dedicação e sensibilidade o presente, não há futuro bem sucedido. Na preparação do futuro toma lugar de primeira linha a Educação formal, tema a que voltaremos brevemente. Mas a Educação das pessoas, dos jovens, a sua preparação para enfrentar os desafios da vida, não se fica apenas pelo sistema educativo – é muito mais e está relacionado também com o exemplo que lhes transmitimos. Neste sentido, creio que terá especial relevo o respeito pela nossa História e pelo nosso património, forma única de saber quem somos.
Este fim-de-semana prolongado tive a oportunidade de visitar alguns lugares dessa memória colectiva, monumentos nacionais de grandiosa beleza, que estão transformados em museus: o Palácio da Pena (Sintra) e o Palácio Nacional de Mafra. Pude ainda visitar o Museu do Oriente, da Fundação com o mesmo nome.
Os museus têm um papel extremamente decisivo na preservação de referências fortes da nossa identidade e na sua promoção, quer junto de nacionais, quer junto de visitantes de outras paragens, sendo também elemento crucial para a promoção turística do país, com forte impacto nas nossas receitas. O património histórico tem igualmente, é claro, uma função educativa de grande valor, complementar aos livros, manuais e professores. Os museus, seja em que área for, são imprescindíveis lugares de contacto com a realidade, com o conhecimento, e assim com a capacidade de sonhar, de ambicionar.
A simbologia e a “utilidade” que tem o património nacional obriga-nos a mantê-lo em boas condições de conservação e a exibi-lo com dignidade – é um sinal de inteligência e um imperativo moral. Há países europeus que o fazem com grande qualidade, bastando ver o caso da Inglaterra, da Espanha, da França, da Itália. Infelizmente, com excepções, não me parece ser o caso de Portugal.
Em contraste com o Museu do Oriente, onde o serviço é de grande qualidade, em todos os pormenores, nos Palácios Nacionais pude mais uma vez confirmar, com enorme preocupação, uma degradação do património e um serviço muito abaixo do desejável. É chocante este desprezo pelo que é nosso. Ainda que involuntário, é inadmissível.
Verifica-se em muitos casos uma grave degradação do património, por falta de conservação e restauro, e nalguns casos, como o de Mafra, um restauro deficiente. Mas é também fraca a qualidade do serviço prestado, especialmente no que concerne à informação disponibilizada nos locais, à “legendagem” dos espaços, das peças e do seu contexto histórico. Em grande parte dos casos as coisas limitam-se a estar ali, abandonadas a uma espécie de vazio histórico, cultural, humano, sem vida. Deve somar-se a este infortúnio a falta de edições de qualidade (livros, postais, outros elementos), actuais, relativas aos elementos em causa, que os promovam condignamente, e que sejam apetecíveis, tornando-se fonte de receita adicional.
A acreditar que só não se faz melhor por falta de verbas, a incapacidade de gerar receitas próprias está, assim, intimamente relacionada com a degradação. Tudo isto fruto de uma política cultural altamente centralista, que inibe a iniciativa dos responsáveis mais directos pelo património, como os directores de museus, e os desresponsabiliza da busca de soluções criativas e da apresentação de resultados.
Depois de um sábado intenso de visita a Sintra, em que a beleza natural e das obras dos nossos antepassados compensou largamente alguns dos aspectos referidos, ainda tentei fazer uma visita ao Museu Nacional do Traje, mas sem sucesso. Cheguei perto das 18h, tendo ficado a saber que só se podia entrar até às 17h30. Este é outro problema grave, o dos horários tantas vezes inadequados, por não servirem quem devem servir, os potenciais visitantes, desde os turistas aos portugueses que trabalham e estudam. Será ele também explicado pelo centralismo improdutivo do Estado? Por que razão não podem, por exemplo os museus, estar abertos num período pós-laboral ou mesmo nocturno?
É urgente e decisivo descentralizar a gestão destes recursos, dando-lhes mais autonomia, flexibilidade e capacidade de gerar criatividade e receitas próprias, responsabilizando-se quem directamente os superintende, exigindo-se outro serviço público.
Há grandes motivos de esperança no nosso futuro e dos nossos jovens. Saibamos transmitir-lhes um outro testemunho.
Ângelo Ferreira
Publicado na edição do Diário de Aveiro de 19/08/2008

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