quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Questões fracturantes

Anda agora na baila a questão dos casamentos homossexuais. Diz-se que é uma questão fracturante. E até o pode ser em algumas circunstâncias pelo facto de dividir grupos de outro modo unidos.

Mas no contexto actual creio que se trata de uma manobra de diversão. As manobras de diversão são usadas para desviar a atenção enquanto se ataca por outro lado. Ora o ponto onde este governo vai atacar é nas políticas económicas, sobretudo nas grandes obras e na consolidação orçamental.


Depois de tudo o que tem sido pedido aos portugueses nos últimos anos, o que sucederá quando até o que agora têm lhes for tirado para pagar juros e amortizações de uma dívida gigantesca?

14 comentários:

Jorge Marques disse...

Sem dúvida que este assunto pode, e é, usado pelo governo como manobra de diversão para distrair a oposição (sobretudo a de esquerda) e os portugueses das questões económicas. Contudo, não sejamos ingénuos, esta faz parte de um conjunto de medidas fracturantes (aborto, casamentos entre pessoas do mesmo sexo, eutanásia e adopção de crianças por casais homossexuais) há muito na agenda deste Primeiro Ministro, com o intuito de mudar a matriz socio-cultural portuguesa. Embora possam ser usadas como táctica política conjuntural, estas são medidas gravíssimas que certamente terão consequências que vão muito para além da crise económico-financeira actual.

Carlos Albuquerque disse...

Jorge

Não me parece que as alterações legislativas mudem a matriz socio-cultural portuguesa.

Em Portugal sempre houve aborto e a legislação só foi mudada muito depois de ter uma grande aprovação popular manifestada em referendo (estou à vontade para o dizer pois defendi o "não" no referendo).

Quanto aos casais homossexuais, as propostas dos partidos (do PS nomeadamente) eram claríssimas. E francamente continuo sem ver argumentos sólidos contra o casamento homossexual. A maioria dos argumentos usados não são suficientes, porque se fossem aplicados a outras circunstâncias dariam resultados absurdos.

Globalmente outros países têm já o casamento homossexual e não consta que muita coisa se tenha alterado por lá.

Joao Ricardo Lopes disse...

Boa noite amigos.
Aqui está um dos temas que vai dar que falar e mexer com muita coisa neste nosso cantinho europeu.
Agarrados que são os portugueses a valores culturais e religiosos, não será de animo leve que as mentalidades conservadoras poderão mudar.
Não se trata, em minha opinião, de saber se é certo ou errado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para mim o mais importante é saber se essas pessoas, porque de pessoas se trata, têm ou não esse direito.
Por mim, penso que decisão deve ser do foro íntimo de cada um. Caberá ao Estado, não obstaculizar e à sociedade, por mais conservadora e retrograda que seja,deixar a liberdade de escolha a cada um.
Numa relação a dois, vários são os pontos que devem servir de base a um bom relacionamento. Entendimento, compreensão, objectivos, carinho, cumplicidade, amor. Existe também a parte física. A atracção entre os opostos, sempre foi e será o principal elo de ligação. Mas existe também, cientificamente provado, a degeneração ou mutação dos genes. a quantificaçãode hormonas e o pender mais para um lado do que para outro.
Não querendo entrar por áreas muito técnicas (não estou habilitado para tal), propunha este raciocínio: abstraindo-nos da parte física (sexual) da questão, não terão dois seres humanos direito a agir e pensar segundo a sua vontade? Não será isso um acto de exercício de liberdade e um direito democrático?
Entrando até pelo campo da paternidade ou maternidade, não terão os eventuais casais o direito de adoptar e criar uma criança, dando-lhe o mesmo amor e proteção que um casal convencional, se para tal estiverem habilitados emocional e económicamente? e asriamças, não terão elas direito a um lar pleno de afectos carinho, educação e amor? e ao crescer,no seu dia a dia, não serão elas cappazes de entender o facto de os seus Pais e Mães serem, diferentes dos Pais e Mães dos outros meninos e meninas, desde que para tal sejam preparados?
Será útil e necessário, dividir a nossa sociedade com mais uma querela omde certamente haverá posições muito extremadas?
Siceramente acho que não. No entanto, respeito os que pensem de forma diferente.
Vão ser muitos os que serão contra e a favor. Vão ser muitos os defensores da realização de consulta popular.
Vejamos até onde isso nos levará.

Jorge Marques disse...

Caro Carlos,
Felizmente vivemos em democracia e ainda vamos podendo dizer o que pensamos sobre os diversos assuntos. No entanto, confesso que me sinto um pouco
constrangido quando a discussão sai do obviamente público e resvala para
aquilo que pode considerar-se do foro íntimo de terceiros. A sexualidade
é um desses assuntos, onde o respeito pelas pessoas concretas deve inspirar
uma certa contenção nas palavras. Além disso, mesmo que, digamos, o pudor
me não impedisse de falar da relação entre pessoas do mesmo sexo, este é um
assunto em que existe uma tal formatação de opinião que obviamente torna
qualquer debate inútil. Feito este parêntesis, respondo então aos seus
comentários:
1) Não serei a pessoa indicada para argumentar consigo sobre o tema, porque
não tenho por profissão a sociologia nem cultivo muito a leitura de estudos a ela relacionados, mas não será difícil encontrar na História tentativas claras de mudar, de cima para baixo, a matriz cultural dos povos. Basta olhar para o século XX. Mesmo em democracia, a legislação pode ser usada para mudar diversas normas instituídas, muitas vezes à revelia da maioria da população. É isso que o estado faz quando impõe determinadas práticas (por exemplo, o uso de cinto de segurança ou o transporte das crianças em cadeiras apropriadas). Em relação ao assunto concreto que tratamos aqui, o governo (ou o PS) criou um discurso que, como disse, é claríssimo. Nesse discurso, o governo vem adoptando uma lógica dualista entre o moderno e o antiquado, entre o progressismo e o conservadorismo, entre o urbano e o rural, entre o ateu e o católico, etc. É precisamente aqui que se inserem estas leis fracturantes e que vincam a posição do Primeiro Ministro, isto é, são no fundo as marcas de um Portugal moderno, progressista, urbano e, preferencialmente, ateu que ele pretende deixar às futuras gerações.
2) Se é certo que em Portugal sempre houve aborto, é também certo que sempre houve uma enorme tolerância para com as pessoas que, em condições sociais difíceis, o praticavam. Isso vê-se pelo número irrisório de mulheres que, abortando, foram perseguidas pela justiça ao longo de muitos e muitos anos. A lei do aborto, resultante de um referendo menos participado que as
últimas eleições, é a grande obra de caridade da Esquerda moderna (supostamente para resolver um grave problema de saúde pública que afectava as classes mais desfavorecidas) que se resume a "quem não pode, não deve ter filhos".
3) Diz que não consegue ver argumentos sólidos contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Da minha parte, também não consigo ver argumentos convincentes a favor. O absurdo é querer igualar o que é completamente diferente. O casamento, tal como existe, tem um papel basilar para a estruturação e, até, sobrevivência da sociedade. O mesmo não se pode dizer sobre aquele que pretendem agora legislar. Depois, é o primeiro
passo com vista à legalização da adopção por casais homossexuais. Hipocritamente separaram os dois processos. Pura táctica política!
4) É certo que o Primeiro Ministro não está sozinho... A nível mundial outros países (não muitos por enquanto!) já embarcaram nesse absurdo progressista. Também não é menos conhecido o progressismo cultural de algumas dessas sociedades ou de alguns dos seus principais líderes. Penso que a mudança é recente e, portanto, teremos de esperar mais algum tempo para ver os seus frutos.

Joao Ricardo Lopes disse...

Caro Jorge.
Ao ler o seu comentário fiquei com a ideia da defesa que faz sobre a não legilação sobre casamentos homosexuais.
Não sei se leu o comentário que deixei no ar.
Também sei quye, se mais nenhum casamento "normal" houvesse, a humanidade estaria ameaçada emquanto espécie. Mas o amigo julga que isso poderia acontecer? acha que tal seria possível?
Eu não acho.Por isso, penso que se a minoria de pessoas que sentem ser essa a via para a sua felicidade devemos respeita-la. Não digo que tenhamos de apoiar incondicionalmemte. Nada disso,apenas termos uma opinião.Apenas aceitar a existência de uma legislação que permita a decisão livre de cada um.
Quanto a adopção, não vejo porque não.
não podem duas pessaos do mesmo sexo ter por uma criança o mesmo amor que um casal convencional? Talvez até mais? Não poderão educá-la e acarinha-la do mesmo modo?
Pense nisso. Estou certo que ainda voltaremos a falar no assunto.
Um abraço.

Jorge Marques disse...

A frase não é minha, mas aponta uma consequência inevitável da lei que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo:

“"Porque se duas pessoas do mesmo sexo se podem casar não há razão para proibir o casamento a termo certo (5, 10, 20 anos) ou o casamento poligâmico (um homem e três mulheres, uma mulher e dois homens)".

Maria José Nogueira Pinto, "Diário de Notícias", 12-11-2009

Carlos Albuquerque disse...

O casamento a termo certo até poderia eventualmente ser mais sólido que um casamento que qualquer um dos dois pode romper quando quiser. E é isso que temos.

O casamento poligâmico poderia ser admitido desde que todas as partes estivessem em igualdade de direitos e deveres. Só que para esse tipo de casamento poligâmico duvido que houvesse muitos pretendentes.

Jorge Marques disse...

Caro Carlos,
Alguma experiência da vida têm-me ensinado que há argumentos para tudo, mas confesso-me perplexo com as suas reflexões sobre tema tão importante para a sociedade portuguesa. Desconhecia que um ilustre membro do MEP, partido no qual votei e que muito prezo, considerava o casamento como um contrato do mesmo tipo do estabelecido por duas empresas (ou indivíduos), por exemplo, com fins comerciais. Aceitar que o casamento seja a termo certo implica reduzi-lo a isso mesmo: um mero contrato, desprovido do amor que se espera ser para toda a vida. É certo que nem sempre é assim, mas na sua origem não se pode retirar essa esperança, caso contrário não tem qualquer sentido. (A propósito, é estranho ver alguém do MEP a admitir a não esperança num assunto tão importante, porque é o que significa aceitar o casamento a termo! Espero que não seja essa a posição do partido...)
Quanto ao casamento poligâmico, nem vou comentar... Sugiro-lhe que repare na desestruturação social existente em países onde tais práticas são culturalmente aceites, tanto por homens como por mulheres. Com todo respeito, parece-me que a sua posição é, na prática, incompatível com a ideia de uma sociedade de famílias, defendida pelo MEP.

jose.anjos disse...

Caros amigos,

Começo por vos dizer que ao ler os vossos comentários me apercebi de quão fracturante é a questão: e se assim é ao nível de um movimento que eu pensava relativamente homogéneo, quanto mais não o será a um nível mais lato.

E assim, correndo o risco de ser tomado como simplista, deixo-vos a opinião deste católico que não esqueceu o que é sê-lo: este não passa de mais um passo na já longa marcha encetada pela Maçonaria contra os "retrógrados valores" da Igreja Católica. Sejamos sinceros, e chamemos as coisas pelos seus nomes: não é evidente a insidiosa laicização perpretada pelos actuais responsáveis políticos com a despudorada colaboração dos meios de comunicação cada vez mais preocupados com a quantidade do que com a qualidade? O relativismo maçónico tomou de tal forma lugar que conceitos como pecado, sagrado, etc, se tornaram estranhos senão mesmo ridículos aos olhos de muitos. Será que Sodoma e Gomorra não passam de uma lenda? Subamos mais um degrau e veremos que esta é uma luta real entreo Bem e o Mal, tomados de uma forma absoluta, por mais que os relativistas nos queiram fazer crer outras coisas, usando para isso, embora talvez de uma forma inconciente,os fumos enganadores, do "Pai da Mentira", responsável primeiro pelos erros da dita Maçonaria, tal como o percebeu Leão XIII...

José Andrade

Carlos Albuquerque disse...

Caro Jorge Marques

A frase de MJNP sugere que a aprovação do casamento homossexual levaria necessariamente a outras generalizações de casamento.

Considero o argumento de MJNP como não adequado pois as duas generalizações que ela sugere não fazem qualquer sentido.

O casamento a termo certo não traria nada de novo pois o casamento actual prevê que qualquer dos membros pode acabar com o casamento quando quiser, desde que a relação seja efectivamente quebrada.

O casamento poligâmico com igualdade de direitos e deveres entre todos é algo que desconheço que exista em qualquer parte do mundo. Não me parece que tenha um número significativo de interessados pelo que me parece uma hipótese irrelevante.

Assim, continuo à espera de melhores argumentos contra o casamento homossexual.

Quanto ao que eu penso sobre o casamento, faz-me imputações para as quais não tem fundamento e que não correspondem à verdade.

Jorge Marques disse...

Caro Carlos Albuquerque,
Depois de várias intervenções, continuo sem entender (ou conhecer) os seus sólidos argumentos a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por isso, peço-lhe desculpa pelas "imputações" que lhe fiz sem "fundamento e que não correspondem à verdade". Certamente, não interpretei bem o seu pensamento.
Quanto ao que eu escrevi sobre este assunto, está escrito... para quem quiser ler.

Carlos Albuquerque disse...

Caro Jorge Marques

O primeiro argumento a favor do casamento homossexual é que há um conjunto significativo de pessoas que o deseja e que já vive essa realidade, embora apenas reconhecida sob a forma de união de facto. Posto isto, haverá que encontrar uma razão para contrariar esta pretensão. No fundo creio que o ónus está do lado de quem se opõe ao casamento homossexual.

Jorge Marques disse...

Caro Carlos Albuquerque,
Esse argumento é fraco, porque pode ser usado para legalizar todas as "realidades" que existem na nossa sociedade e que lhe são adversas. Também a questão do "conjunto significativo" é estatisticamente irrelevante, não fora o fortíssimo lobby que tem, tanto na comunicação social como em vários partidos.

Não, creio que está errado, o ónus deve estar do lado de quem quer mudar a lei. Como disse e bem, já existe uma lei que contempla "essa realidade". Se quiser dar-se ao trabalho de reler o que eu escrevi nas intervenções anteriores, irá perceber as razões por que sou contra. Esta é uma lei que realmente fractura a sociedade, não tanto a opinião pública.

Carlos Albuquerque disse...

Caro Jorge Marques

O meu argumento não pode ser usado para legalizar seja o que for desde que estejamos de acordo quanto ao seu efeito adverso para a sociedade.

O ponto de discórdia aqui é precisamente esse: o casamento homossexual é ou não adverso para a sociedade? Quem acha que sim é naturalmente contra. Quem acha que não é adverso para a sociedade, não tem objecções à legalização.

Pessoalmente tenho lido os argumentos daqueles que defendem os efeitos adversos e não fico convencido, já que o tipo de argumentos utilizados ou são exagerados (como as supostas consequências inevitáveis sugeridas por MJNP) ou então poderiam ser usados para mostrar os efeitos adversos de outras realidades perfeitamente pacíficas na sociedade.